Pesquisador do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), Carlos Durigan é geógrafo pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) e mestre em Ecologia pelo INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia). Há mais de 30 anos, atua com projetos socioambientais no bioma Amazônia.
Em entrevista à newsletter Um Grau e Meio, Durigan fala sobre os desafios para a proteção das espécies migratórias. Saiba mais sobre o tema na coluna assinada pelo pesquisador no JOTA.
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O que caracteriza uma espécie migratória?
Uma espécie é considerada migratória quando realiza deslocamentos periódicos, previsíveis e regulares entre diferentes áreas ao longo de seu ciclo de vida, geralmente associados à alimentação, reprodução ou resposta a variações ambientais. No âmbito da Convenção sobre Espécies Migratórias, são consideradas migratórias aquelas cujas populações cruzam uma ou mais fronteiras nacionais, o que torna sua conservação dependente de cooperação internacional.
Quais as principais espécies do Brasil?
O Brasil abriga uma grande diversidade de espécies migratórias, com destaque para peixes, aves e mamíferos aquáticos. Entre alguns exemplos de destaque, considerando inclusive o grau de ameaça, temos a dourada (Brachyplatystoma rousseauxii), bagre migrador que percorre grandes distâncias ao longo da bacia amazônica.
Entre as aves, destacam-se o maçarico-de-bico-torto (Numenius hudsonicus), incluso no Anexo 1 da CMS na COP15, e a águia-pescadora (Pandion haliaetus) – Anexo 2 desde1979, que conectam hemisférios.
Entre espécies de maior preocupação global incluídas no Apêndice I da Convenção sobre Espécies Migratórias, destacam-se o albatroz-de-tristão (Diomedea dabbenena), altamente ameaçado por captura incidental, e a tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), que utiliza a costa brasileira em suas rotas migratórias e ainda o tubarão-azul (Prionace glauca), altamente ameaçado pela pesca predatória no litoral brasileiro.
Já entre os mamíferos marinhos, a baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae) migra até o litoral brasileiro para reprodução e está inclusa no Anexo 1 desde 1979.
A única espécie de mamífero terrestre brasileiro que está inclusa nos anexos 1 e 2 é a onça-pitada (Panthera onca), em função de suas populações estarem ameaçadas em várias regiões ao longo de todo o continente americano e dependem de conectividade entre habitats para sobreviver. Além disso, seus deslocamentos entre países exigem cooperação internacional para garantir corredores ecológicos e a conservação da espécie.
De que maneira estes animais estão ameaçados?
As principais ameaças incluem a perda e fragmentação de habitats, sobrepesca, caça ilegal e diferentes formas de contaminação (agrotóxicos, esgoto, plástico). Esses impactos são agravados pelas mudanças climáticas, que alteram regimes hidrológicos, intensificam secas e incêndios e afetam especialmente áreas úmidas, rios e zonas costeiras — ambientes críticos para grande parte das espécies migratórias que ocorrem no Brasil.
Como superar os desafios para sua proteção?
A conservação de espécies migratórias exige ações coordenadas em escala internacional, como promovido pela COP15 da CMS. No Brasil, é fundamental fortalecer unidades de conservação e terras indígenas, ampliar a conectividade entre paisagens e avançar na proteção de áreas fora desses territórios, o que inclui a destinação de terras públicas para finalidades que incluam a sua proteção. Destaca-se ainda o papel central de povos indígenas e comunidades tradicionais, bem como a necessidade de reduzir pressões como desmatamento, contaminação e emissões que intensificam a crise climática.
