Focos de calor na região de Manaus aumentaram 37 vezes em outubro

21 de outubro de 2026 | Notícias

out 21, 2026 | Notícias

Por Mayara Subtil*

Os focos de calor na região metropolitana de Manaus e em municípios do entorno aumentaram nos últimos dez dias, colocando 2026 acima do padrão histórico para o período. Entre 4 e 14 de outubro, foram registrados 5.598 focos, número 37 vezes maior que o observado no mesmo intervalo de 2025, quando houve 149 registros. De acordo com levantamento do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), o total também supera os 4.385 pontos de calor detectados no intervalo equivalente de 2023, ano em que a Amazônia atravessou uma seca extrema.

Acúmulo de focos de calor nas regiões metropolitana e central de Manaus de janeiro a 14 de outubro de 2026. Foto: IPAM.

Com base em dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a análise do IPAM acompanha 19 municípios das regiões metropolitana e central do Amazonas. O levantamento utiliza informações do sensor VIIRS, a bordo do satélite Suomi NPP, divulgados pelo INPE, para comparar os focos de calor com os de anos anteriores, bem como identificar sua distribuição em áreas de vegetação natural, propriedades rurais e terras públicas. Considera ainda alertas de desmatamento e degradação florestal.

Entre 1º de janeiro e 14 de outubro de 2026, os 19 municípios analisados somaram 15.674 focos de calor, uma alta de 109,4% em relação à média histórica para o mesmo período. O número é inferior apenas ao observado em 2023, considerando os anos analisados, e mostra que a região apresenta um comportamento próximo ao registrado durante a seca na Amazônia naquele ano. Os registros começaram a aumentar em agosto, com maior concentração em setembro.

Além disso, grande parte dos focos de calor está concentrada na margem direita do rio Amazonas, sobretudo nos municípios de Careiro da Várzea e Autazes, próximos a Manaus.

Apesar do aumento regional, o município de Manaus apresentou uma situação diferente. Na capital amazonense, foram identificados 198 focos de calor entre janeiro e 14 de outubro de 2026, queda de 3,8% em relação à média do mesmo período entre 2015 e 2025, de 206 registros. Ou seja, Manaus respondeu por 1,3% dos focos identificados nos 19 municípios.

O aumento se concentrou sobretudo no entorno da capital. Autazes registrou 2.827 focos de calor, crescimento de 138% em relação à média histórica, seguido por Maués, com 2.431 registros (+60%), e Itacoatiara, com 1.639 (+124%). Juntos, os três municípios representaram 44% dos focos de calor identificados na região entre janeiro e 14 de outubro deste ano.

“Esse aumento coincide com o período em que a região começa a sentir os impactos da seca provocada pelo El Nino, mas é importante lembrar que a seca não inicia o fogo, mas sim as pessoas. A seca favorece sua propagação. Para evitar que haja mais incêndios nas próximas semanas e meses, quando o El Niño tende a ficar mais forte, é fundamental reduzir o uso do fogo”, afirmou Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM.

Segundo Newton Monteiro, pesquisador do IPAM, o aumento dos focos de calor “reflete o comportamento sazonal esperado para esta época do ano, no qual 2026 não foge à regra. Contudo, o tamanho e a velocidade desse acúmulo chamam a atenção: impulsionada por uma verticalização nos registros de focos de calor logo no início de outubro, a curva deste ano salta de forma expressiva, saindo da normalidade dos anos anteriores e se posicionando em patamares próximos aos de 2023, quando a mesma região enfrentou uma seca extrema”.

Mais de 300 focos de incêndio foram extintos no Amazonas nos últimos cinco dias, segundo informações do governo federal. Após registrar um pico de 494 novos focos em 10 de outubro, o estado somou 188 pontos de calor em 16 de outubro, conforme o painel Queimadas, do INPE.

O combate aos incêndios mobiliza 330 brigadistas, coordenados pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), além de 11 aeronaves, 32 veículos terrestres e oito embarcações.

Florestas Públicas Não Destinadas

As FPNDs (Florestas Públicas Não Destinadas) responderam por 39,4% dos focos de calor registrados entre janeiro e 14 de outubro de 2026 nas regiões metropolitana e central do Amazonas. Essas florestas pertencem ao poder público, mas ainda não receberam uma destinação formal voltada à conservação e ao uso sustentável. Entre as destinações previstas na legislação brasileira estão a criação de áreas protegidas e o reconhecimento de direitos territoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais.

Outros 22,6% dos focos ocorreram em terras públicas, sendo 57% federais e 43% estaduais. Os assentamentos concentraram 15% dos registros, enquanto as Terras Indígenas responderam por 6,8%. Nas propriedades rurais privadas, foram identificados 5.155 focos de calor, dos quais 2.018 ocorreram em imóveis de grande porte, 450 em propriedades médias e 2.687 em pequenas propriedades.

Dados de focos de calor por categorias fundiárias uso e cobertura nas regiões metropolitana e central de Manaus de janeiro a 14 de outubro de 2026. Foto: IPAM

O levantamento também mostra que 77% dos focos ocorreram em áreas de vegetação nativa, enquanto 23% foram registrados em áreas já alteradas pela ação humana, como áreas de pastagem.

“A concentração dos focos de calor nas Florestas Públicas Não Destinadas é um sinal de alerta para a vulnerabilidade desses territórios, que já enfrentam pressões relacionadas à grilagem, ao desmatamento ilegal e ao uso do fogo. É urgente avançar na destinação dessas florestas para conservação e uso sustentável, garantindo sua governança e medidas de proteção, como a fiscalização e manejo integrado do fogo, a fim de reduzir os riscos de degradação e incêndios florestais”, destacou Rebecca Maranhão, pesquisadora do IPAM.

Na Amazônia, cerca de 78% das áreas desmatadas em FPNDs são posteriormente convertidas em pastagens, enquanto 22% apresentam regeneração da vegetação, mas permanecem sujeitas a novos processos de degradação e incêndios. Em 2024, em meio a seca extrema associada ao El Niño, essas florestas registraram a maior área queimada desde 2019.

Como as florestas tropicais úmidas não são naturalmente adaptadas ao fogo, os incêndios ameaçam a biodiversidade, os estoques de carbono e a capacidade de recuperação da vegetação. A destinação dessas áreas permite ainda fortalecer a fiscalização e o manejo integrado do fogo, medidas que contribuem para reduzir a ocupação irregular e o risco de novos incêndios.

Municípios

Além de Manaus, o levantamento acompanha outros 18 municípios do Amazonas: Autazes, Barreirinha, Boa Vista do Ramos, Careiro, Careiro da Várzea, Iranduba, Itacoatiara, Itapiranga, Maués, Nhamundá, Nova Olinda do Norte, Parintins, Presidente Figueiredo, Rio Preto da Eva, São Sebastião do Uatumã, Silves, Urucará e Urucurituba.

Entre janeiro e 14 de outubro de 2026, os municípios monitorados registraram 15.674 focos de calor. Setembro concentrou o maior número de ocorrências, com 6.861 registros, seguido por outubro, que já soma 6.183 focos até o dia 14 de outubro.

A análise também considera os alertas do DETER (Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real), do INPE, para acompanhar a ocorrência de desmatamento e degradação florestal nas áreas monitoradas.

*Analista de comunicação. mayara.barbosa@ipam.org.br
Foto de capa: Newton Monteiro/IPAM

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