Extremos climáticos avançam mesmo em áreas conservadas da Amazônia

6 de outubro de 2026 | Notícias

out 6, 2026 | Notícias

Por Lucas Guaraldo e Suellen Padilha*

Os efeitos das mudanças climáticas na Amazônia são cada vez menos graduais e homogêneos e extremos climáticos também tem afetado áreas mais conservadas da floresta, aponta o artigo “Rapid increase of climate extremes reveals new areas of concern in Amazonia”, publicado na revista Communications Earth & Environment com participação de pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

Segundo o estudo, a porção sul do bioma, conhecida como o “arco do desmatamento”, concentra a maior perda de vegetação nativa e registrou o aquecimento mais rápido. Mas foi na região centro-norte da floresta, com maior cobertura florestal, que o clima foi mais extremo. Para os pesquisadores, essa mudança reforça a tese de que o contexto global da crise climática tem impactado mesmo as áreas mais conservadas da floresta, afastadas do epicentro do desmatamento no Brasil.

“Essa diferença entre a área que registra mais desmatamento, o principal agente local das mudanças no clima, e as áreas mais afetadas por extremos climáticos, demonstra que os grandes países emissores de gases de efeito estufa têm uma responsabilidade cada vez maior no desequilíbrio social e ecológico da Amazônia. Isso reforça não só a importância da redução das emissões globais para o equilíbrio da floresta, mas também que nações fora da Amazônia tem culpa na sua instabilidade e por isso devem pagar por sua recuperação”, escrevem os cientistas.

O estudo reuniu pesquisadores de 31 instituições de seis países, com participação de centros e universidades de referência em pesquisa ambiental, como a Universidade de Oxford, Universidade de Yale, Universidade Columbia , Universidade de Lancaster e Universidade de Wageningen e NASA. No Brasil, além do IPAM, participaram instituições como o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), além de universidades federais e estaduais de diferentes regiões do país.

Uma nova forma de medir o clima

Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram os picos de temperatura e seca em cada região da Amazônia, comparando os resultados à média registrada em todo o bioma. Assim, foi possível localizar, onde e quando, ocorreram os fenômenos climáticos mais críticos, assim como identificar a distância das medições de cada área para os registros médios do bioma.

 “O mais preocupante é perceber que a região mais úmida e conservada da Amazônia já está experimentando extremos de calor e seca. Essas florestas evoluíram sob condições de muita umidade e são particularmente sensíveis quando falta água. À medida que ficam mais quentes e secas, perdem parte da sua resistência natural ao fogo. Isso mostra que manter a floresta em pé é essencial, mas não basta: sem reduzir as emissões globais, até as áreas mais conservadas da Amazônia estarão cada vez mais expostas aos extremos climáticos e ao risco de incêndios.” Explicou, Ane Alencar, diretora de Ciências do IPAM.

Os cientistas constataram que, enquanto a porção sul do bioma registrou um aumento significativo na variação de temperatura e chuva, seus valores acompanharam o aumento médio das temperaturas no planeta. A região central da floresta, por sua vez, teve variações 2,34 vezes maiores do que a média do bioma.

Segundo os pesquisadores, essa variação se deve à região ter passado por mais períodos excepcionalmente quentes e secos, onde a perda de biodiversidade é mais acelerada do que em regiões que aqueceram de forma gradual.

“As taxas de mudança nos eventos climáticos extremos são muito maiores do que as taxas de mudança do clima médio na Amazônia, e as regiões mais afetadas também são diferentes para os extremos e para o clima médio. Isso é importante porque mostramos que o clima da Amazônia não está mudando de forma uniforme. Essa informação será crucial para o planejamento e a implementação de estratégias de adaptação às mudanças climáticas”, afirma Nathália Carvalho, co-autora do estudo e pesquisadora de pós-doutorado no Lancaster Environment Centre.

Clima extremo e estresse hídrico

Extremos climáticos causam os efeitos mais danosos associados às mudanças climáticas. Verões desproporcionalmente quentes são responsáveis por aumento na mortalidade de pessoas, animais e plantas, além de danos severos aos ecossistemas florestais. Na Amazônia, eventos extremos, como os registrados em 2023 e 2024 e esperados para o atual El Niño, estão associados a queimadas de grandes proporções, extinção de espécies e impactos na saúde humana e qualidade do ar.

“Estamos mais interessados nos fenômenos ocorridos quando as condições climáticas são mais quentes e secas, pois é nesse período que as altas temperaturas podem causar os maiores danos”, afirmou o professor Jos Barlow, da Universidade de Lancaster, um dos autores do estudo. “Embora isso já tenha sido avaliado no sul da Amazônia, que apresenta uma estação seca bastante semelhante, nunca foi avaliado em toda a Amazônia, que inclui regiões ao norte do Equador com um período de estação seca diferente.”

O estudo demonstra que as mudanças climáticas na Amazônia não ocorrem de forma gradual nem homogênea e evidenciam o enorme desafio que as políticas públicas têm pela frente diante do rápido aumento das temperaturas extremas e dos déficits hídricos. Esses fenômenos também merecem atenção por estarem ocorrendo na região centro-norte da Amazônia, distante do arco do desmatamento.

Analistas de comunicação do IPAM*

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