Fortalecer a proteção da Amazônia não está apenas nas mãos de governos, empresas e organizações que atuam na região. Escolhas feitas diariamente por cidadãos em diferentes partes do mundo também influenciam cadeias produtivas, fluxos financeiros e decisões políticas que podem impulsionar o desmatamento ou fortalecer a conservação da floresta.
“O consumo em regiões como o Leste Asiático, a Europa e as Américas está diretamente ligado ao desmatamento na Amazônia. A floresta sente o impacto de decisões tomadas do outro lado do mundo. Mesmo pequenas medidas para reduzir a pressão sobre o clima e as florestas ainda fazem diferença”, destaca Olivia Zerbini, pesquisadora do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), no terceiro e último episódio da série Living Library, lançado hoje no Simpósio Brasil-China sobre Florestas e Natureza em Pequim, na China.
O episódio também contará com transmissão em 22/09 no evento “Encruzilhadas Climáticas 2026 – Sistemas Rurais Resilientes: Agricultura Regenerativa, Carbono e Financiamento”, organizado pelo IPAM, em parceria com o Instituto O Mundo Que Queremos, na Semana do Clima de Nova York.
Cinco formas de transformar escolhas cotidianas em ações concretas para a proteção da Amazônia
1. Escolha produtos com compromissos de origem responsável
Produtos associados ao risco de desmatamento requerem atenção especial, já que suas escolhas de consumo ajudam a moldar os mercados. Sempre que possível, opte por produtos com compromissos de origem responsável e apoie iniciativas que promovam cadeias produtivas transparentes.
2. Exija transparência e rastreabilidade
Dê preferência a produtos com selos de certificação confiáveis e exija mais transparência de empresas e governos sobre sua origem. Embora nenhum sistema seja perfeito, alguns selos ajudam a identificar práticas mais responsáveis.
Saber de onde vêm os produtos é uma forma de evitar que cadeias produtivas associadas ao desmatamento permaneçam invisíveis. Pesquisa do IPAM revela que, nas FPNDs (Florestas Públicas Não Destinadas) da Amazônia, 78% das áreas afetadas pela grilagem foram convertidas em pastagem. Isso reforça a necessidade de um sistema de rastreabilidade. FPNDs são terras sob domínio dos governos estaduais ou federal que aguardam destinação para uma categoria fundiária, como unidades de conservação, terras indígenas e reservas extrativistas.
3. Informe-se sobre o destino do seu dinheiro
As decisões do setor financeiro também influenciam diretamente o futuro da Amazônia. Por isso, é importante informar-se sobre como seu banco, seu fundo de pensão ou os gestores dos seus investimentos aplicam seus recursos.
O financiamento pode tanto impulsionar atividades que aumentam a pressão sobre a floresta quanto apoiar mecanismos que remuneram quem a conserva, como pagamentos por serviços ambientais e outras iniciativas que valorizam a floresta viva. Esse apoio deve seguir um princípio básico de justiça climática: os países que mais contribuíram para as mudanças climáticas precisam contribuir proporcionalmente mais para a proteção de ecossistemas como a Amazônia.
4. Apoie as economias dos povos indígenas e das comunidades locais
Pesquisas demonstram que povos indígenas e comunidades locais ajudam a estocar carbono, manter a floresta e preservar funções climáticas essenciais, como as chuvas que irrigam lavouras. Uma das formas de contribuir é apoiar modelos de negócios que priorizem a conservação, incluindo a produção comunitária e os produtos florestais sustentáveis.
Também é importante apoiar políticas que protejam os direitos territoriais dos povos indígenas e das comunidades locais. Trabalhar em parceria com economias lideradas por indígenas e comunidades de base é uma das abordagens com maior respaldo científico para proteger a floresta ao mesmo tempo em que promove o desenvolvimento local.
5. Use sua voz política
Questionar a origem dos produtos é uma forma de gerar pressão em grandes produtores, o que pode resultar em políticas de transparência e rastreabilidade, além de fortalecer mecanismos de compliance ao longo das cadeias produtivas.
A participação política vai além das eleições. Ela também se expressa nos hábitos de consumo, nas conversas, nas exigências feitas a empresas e governos e nos valores que escolhemos defender.
Sobre o Amazoniar
O Amazoniar é uma iniciativa do IPAM para ampliar o diálogo global sobre a Amazônia. Desde 2021, a iniciativa promove discussões de temas que vão desde os impactos das relações comerciais entre Brasil e Europa na floresta até o engajamento da juventude pela floresta e seus povos nas eleições. O objetivo é democratizar a informação e incentivar a participação de todos na proteção da maior floresta tropical do mundo.
Com a proposta de levar a Amazônia para além de suas fronteiras, o Amazoniar vem realizando projetos especiais, como um concurso de fotografia, cujas obras selecionadas foram expostas nas ruas de Glasgow, na Escócia, durante a COP26; uma série de curtas que compôs a exposição “Fruturos – Amazônia do Amanhã”, do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro; além de vídeo-entrevistas com representantes de comunidades tradicionais durante as negociações do Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e União Europeia; e o minidocumentário “O chamado do cacique” sobre o legado do cacique Raoni Metuktire.