A juventude ribeirinha que luta para manter a floresta e as suas tradições vivas

10 de agosto de 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

ago 10, 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

Por Lucas Ramos

 

“Não pense que o trabalho de preservar, de conservar, seja só de quem vive na floresta. Lutar por um mundo, um país e um lar estáveis não é só para as comunidades tradicionais. Abraça essa causa com a gente!”

É com esse senso de coletividade que a jovem de 18 anos, Maria Oliveira, conhecida como Mariazinha, contribui para a organização social de sua comunidade. Tinha apenas 10 anos quando deixou a comunidade onde nasceu, à margem do rio Juruá, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari, para viver do outro lado do rio, em São Raimundo, dentro da Reserva Extrativista do Médio Juruá, no Amazonas.

Foi ali, ainda criança, que sua trajetória de mobilização social começou. Encontrou um coletivo de jovens já formado, o JLPC (Juventude em Luta Pela Caminhada), e “a partir daí, eu não parei mais, né? Foi ação em cima de ação”, lembra.

Foto de Maria "Mariazinha” Oliveira, do acervo JLPC

📸 Maria “Mariazinha” Oliveira (Acervo JLPC)

Com mais de duas décadas de existência, o coletivo busca envolver principalmente os jovens para que participem da vida comunitária e debatam suas questões enquanto integrantes de uma população tradicional. Hoje, a JLPC atua em quatro frentes que Mariazinha resume como fundamentais: o fortalecimento do senso comunitário, a espiritualidade, a cultura e a economia sustentável.

Tradição versus tecnologia

Um dos temas centrais de debate entre a juventude é a tensão entre os saberes tradicionais e a chegada da internet às comunidades ribeirinhas. Para Mariazinha, a juventude local vem se afastando de práticas tradicionais, que ela considera essenciais à identidade de seu povo, em contraponto a soluções vistas na internet. Ela associa esse afastamento a uma busca por equiparação à vida urbana.

“A gente tinha alguns conhecimentos melhores do que os do povo da cidade, com experiências naturais e tradicionais. Ninguém mais quer tomar o chá medicinal, que é uma cultura antiga do nosso povo, por conta de que na internet tem aquele remédio que só funciona se for ele”, lamenta. “A juventude das comunidades está muito parecida com a juventude da cidade. Por isso, o coletivo tem investido em mostrar aos mais jovens que esses conhecimentos são nossos e são importantes”.

Reconstruindo o senso de comunidade

Um dos pilares do trabalho do JLPC são os chamados “mutirões solidários”, uma iniciativa coletiva em que o grupo de jovens se reúne para realizar tarefas em nome de quem não consegue executá-las sozinho ou mesmo em prol da comunidade.

“A gente junta todo mundo e todo mundo trabalha para uma pessoa que não consegue exercer aquele trabalho. E aí, a cada dia, a gente faz um mutirão para uma pessoa diferente”, explica Maria. Dessa forma, “todos cumprem suas tarefas essenciais sem tanto peso e ainda exercitam o senso comunitário.”

Na dimensão espiritual, o coletivo criou o ODJ (Ofício Divino da Juventude), levado às casas das famílias que não conseguem frequentar a igreja. Já na esfera cultural, o grupo tem resgatado festejos comunitários em datas comemorativas, uma tradição, segundo Maria, que estava se perdendo.

Entre as conquistas de que mais se orgulha, a jovem destaca uma mobilização comunitária que reuniu o coletivo, a comunidade e a associação local para garantir o acesso à educação para adultos. “Essa mobilização de trazer a educação a quem não teve oportunidade de estudar foi a que mais me orgulhou durante toda essa caminhada dentro do coletivo”, afirma.

Acervo JLPC

📸 Acervo JLPC

A chocadeira ecológica e o equilíbrio da floresta

Há cerca de três anos, diante da redução da população de quelônios, agravada pelas mudanças climáticas e pela predação dos ovos, o coletivo assumiu a responsabilidade por um projeto de “chocadeira ecológica”.

“É uma espécie de viveiro cercado, cheio de areia, onde os ovos retirados das praias de desova são incubados com segurança até que os filhotes possam ser devolvidos ao habitat natural”, explica. “Desses três anos atrás, quando a gente começou até agora, a gente consegue perceber a diferença, o aumento que teve”, relata Maria.

A percepção do equilíbrio ecológico é compartilhada por toda a comunidade: “Se diminui a quantidade de qualquer espécie, a gente já sente. É como se tudo fosse um equilíbrio. Se cai uma, a tendência é que as outras também caiam. […] É como se eles fossem a base um do outro, o equilíbrio um do outro mesmo”, explica.

O monitoramento como educação econômica

Mariazinha também traça um paralelo entre essa organização social e os resultados econômicos concretos por meio do monitoramento das atividades centrais da comunidade. O coletivo passou a monitorar a extração de látex das seringueiras, coibindo cortes acima do limite da capacidade de produção. Segundo a jovem liderança, a prática reduziu drasticamente a mortalidade das árvores e ainda rendeu benefícios financeiros, já que, além de garantir o produto para os anos seguintes, o poder público recompensa as comunidades pelo manejo comprovadamente sustentável.

“Quando o governo vê a atividade bem realizada, ele aumenta uma política pública”, explica. A seringueira “é como se fosse uma mãe. Alimenta muitos filhos, desde que seja explorada com respeito aos seus limites. (…) o monitoramento não só ajuda na atividade em si, mas também ajuda nesse equilíbrio”.

 Acervo JLPC

📸 Acervo JLPC

Num outro exemplo, citou o manejo do pirarucu iniciado em 2011. No primeiro ano de manejo na comunidade, os moradores processaram 60 pirarucus, mas nem chegaram a receber pelo trabalho, por falta de organização e de conhecimento. “Levaram meio que um trote”, resume. Com o passar dos anos e o amadurecimento do monitoramento comunitário liderado pelos jovens, a atividade tornou-se uma das principais fontes de renda local, inclusive financiando a instalação de sistemas de energia solar em diversas comunidades da região.

Um sonho que ultrapassa as fronteiras

Frequentemente escolhida para representar a região do Médio Juruá em encontros com outros movimentos da organização social, Maria cita um encontro em Bogotá, na Colômbia, e outro em Óbidos, no Pará, nos quais, segundo relatos que ouviu, iniciativas locais teriam inspirado projetos após a divulgação das atividades realizadas no Médio Juruá.

“Me falaram que tem uma ação que eles fizeram lá porque viram no YouTube um pessoal daqui do Médio Juruá. Quando a gente age aqui e também posta, isso gera resultados para outros municípios”, avalia.

Maria, como quem esconde sua grandeza, fala em nome de uma geração inteira: “Esse sonho não é meu, não é do coletivo, mas é de toda a juventude do Médio Juruá. A gente quer montar uma caravana e sair por aí, levando todo esse conhecimento tradicional.” A ideia dessa “caravana social” é levar a outras comunidades, sobretudo as que carecem de organização de base, os conhecimentos tradicionais, as adaptações ao clima e as práticas de manejo sustentável desenvolvidas no Médio Juruá ao longo de toda a sua história.

ODS 13ODS 11

Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

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