“A bicicleta é como um passaporte diplomático. Ela abre portas e aumenta seu contato com o mundo”

10 de agosto de 2026 | Notícias, TransCerrado, Um Grau e Meio

Por Lucas Guaraldo

Além de mobilidade urbana e lazer, o ciclismo fornece uma opotunidade única de conhecer pisagens de uma nova forma. Se o carro permite que mais distâncias sejam percorridas com confrto, na bicicleta o ciclista depende mais da cooperação com as comunidades por onde passa, abrindo caminhos para conversas e trocas de experiência. Partindo dessa premissa, o projeto TransCerrado chega a sua sétima edição, em que 7 ciclistas percorrerâo 300 km do Cerrado goiano para colher relatos sobreas as mudanças climáticas no bioma.

Em entrevista à newsletter Um Grau e Meio, Joab Marques, ultraciclista, cicloviajante e competidor, conta suas experiências ao percorrer dezenas de milhares de quilômetros pelo Brasil. Participante do TransCerrado em 2026, Joab percorreu 1.200 km de estradas desde a cidade de Guarulhos, em São Paulo, para encontrar os pesquisadores em Brasília e iniciar a expedição. 

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Como você passou de alguém que gostava de andar de bicicleta para um atleta que percorre centenas de quilômetros por dia?

Comecei a pedalar pela mobilidade urbana enquanto morava em São Paulo. Eu já fazia algumas viagens de bicicleta pelo Brasil desde 2014, mas em 2021 isso virou meu meio de vida, meu trabalho.  

Sempre gostei muito de pedalar longas distâncias por dia mesmo quando tinha que equilibrar isso com o trabalho de contador. Às vezes parece loucura acordar antes do sol nascer e ir dormir de madrugada para percorrer 200, 300 ou 400 km em um único dia, mas é o que eu amo e o que me faz sentir vivo. 

Qual a principal diferença entre fazer uma viagem de bicicleta para outras formas de viagem, como de carro, por exemplo?

A grande diferença é o contato que você tem com as pessoas, as paisagens e os lugares que você está passando. Com carros e motos você consegue ir mais rápido, mas não consegue perceber pelo que você está passando. Quando você vai de bicicleta, por outro lado, as pessoas ficam curiosas, abrem portas e começam a fazer perguntas. Você consegue conversar mais com os moradores da área que está passando e conhecer mais pessoas.

O carro é como uma armadura, você chega nos lugares dentro de uma caixa de ferro e com ar-condicionado e por isso as pessoas não se abrem muito. A bicicleta, por outro lado, te deixa disponível e isso abre portas. A bicicleta é um passaporte diplomático que expande seu contato com o mundo e as paisagens.

O que te marca mais desse contato com as paisagens naturais através do ciclismo?

Nas minhas últimas viagens, principalmente, tem me chamado atenção o aumento das monoculturas e da devastação de grandes áreas de mata nativa para a produção de alimentos. Eu sei que isso é importante e responde por uma grande parte do nosso PIB, mas tem lugares que eu passo 2 ou 3 vezes todos os anos e vejo cada vez mais grandes áreas de mata sendo derrubadas para o plantio de uma única espécie

Você tem percebido um clima mais extremo por causa dessas mudanças na paisagem? Isso é algo que te afeta durante as viagens de bicicleta? 

Eu sinto bastante. É muito perceptível. Pedalar em áreas de mata conservada é totalmente diferente de pedalar no asfalto. Dá pra sentir na pele a secura e o calor. Preciso beber muito mais líquidos e tem dia que são necessários quase 15 litros de água e isotônico.  Também faz muito mais calor, venta mais e há mudanças rápidas no clima fora de época. 

Foi essa percepção que te trouxe para o TransCerrado? 

Minha história com o TransCerrado começou quando estava organizando uma travessia de 10 mil km do Norte ao Sul do Brasil para marcar a COP30. Estava querendo falar da bicicleta como uma solução importante para a crise climática, uma forma de transporte de energia limpa e nessa alguns parceiros da Shimano que conheciam a TransCerrado sugeriram fazermos uma parceria. 

A gente não se conhecia, mas durante a COP30 pudemos apresentar nossas visões sobre o ciclismo, conversar e, nesse contexto, surgiu o convite de participar da próxima edição da travessia. Aceitei de cara porque qualquer coisa que tenha pedal e aventura é irresistível pra mim. Já tinha algumas expectativas altas para esse projeto, mas elas já estão sendo superadas no primeiro dia. 

Como foi essa chegada em Belém de bicicleta no ano passado?

Saí de Guarulhos, onde moro, e fui até Belém passando por Brasília, Palmas e entrei no sul do Pará passando por Marabá. Foram 14 dias na estrada  3.100 km percorridos. Pude ficar lá por uma semana durante a COP30, participando de alguns projetos e também conhecendo a galera local e fazendo alguns pedais pela cidade.

Como foi passar pelo sul do Pará, no Arco do Desmatamento?

Deu pra perceber que a floresta amazônica está dando lugar para as monoculturas e para as pastagens. A partir do momento que cheguei no Tocantins e entrei no Pará, comecei a ver muitos caminhões lotados de bois vivos indo para o abate em São Paulo. Pude conversar com alguns motoristas e me disseram que o gado é criado no Pará onde é mais barato e abatido no Sudeste onde isso fica mais barato também. Então é uma cadeia nacional que queima combustível e desmata florestas para cortar custos. Fica muito claro que estamos trocando a floresta por pasto e lavouras. 

Nessa região, onde tem a chamada “Capital da Soja”, houveram momentos em que pedalei dois dias inteiros vendo apenas áreas de soja e a gente sente o desequilíbrio ambiental quando passamos por essas áreas. Eu lembro de sentir o tempo inteiro insetos batendo na minha pele e no meu rosto enquanto pedalava, algo que não sentimos em áreas equilibradas e de vegetação nativa saudável, como nas terras indígenas que atravessei, por exemplo.

O que você estava mais curioso para ver no TransCerrado?

Eu não conhecia a região de Terra Ronca e, depois que fui chamado, pesquisei sobre e fiquei encantado. Minha maior curiosidade era ver esse monte de grutas e de água. Também queria muito pedalar com os pesquisadores do projeto, que já fizeram isso várias vezes antes, e aprender com eles sobre o Cerrado. Só no primeiro dia da expedição eu vi várias plantas, frutas e animais que eu nunca tinha sonhado em ver. 

Quando me falaram que era um projeto de pedalar pela conservação, senti que era uma oportunidade de devolver tudo que a bicicleta tinha me dado. Comecei a pedalar para não depender mais do carro, tanto pela praticidade quanto pelo efeito que a queima de combustíveis tem no planeta, e em um projeto como esse eu posso ajudar a divulgar essa percepção para as outras pessoas também. 

Você comentou da bicicleta como uma forma limpa de transporte e também como uma maneira diferente de ver o mundo ao seu redor. Na sua opinião, quais são os caminhos para o combate às mudanças climáticas que apenas um ciclista pode indicar?

A bicicleta é um exemplo de algo saudável, inclusivo e que não polui. Em uma cidade grande, cada bicicleta é um carro a menos e ela te permite chegar em qualquer lugar, mesmo que mais lentamente. Você conhece mais pessoas e mais realidade com a bicicleta e ela te permite pensar no mundo em outro ritmo. Ela tem muito a oferecer porque une conservação, saúde e diversidade de olhares. 

Além dela te permitir chegar em qualquer lugar, ela abre portas, te faz conhecer pessoas e te mostra mais dos seus arredores. 

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