Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), integra a lista dos 101 brasileiros moldando o futuro, divulgada neste domingo, 26, por O Globo, como destaque ambiental. A iniciativa marca os 101 anos do jornal.
Uma das maiores pesquisadoras do país sobre fogo e desmatamento na Amazônia e no Cerrado, a diretora trabalha há mais de 30 anos na área, conectando os impactos da destruição da natureza com os efeitos das mudanças climáticas, bem como a retroalimentação nociva que surge desse cenário.
A menção da lista de O Globo é mais um reconhecimento a Alencar como referência na ciência brasileira e na busca de respostas para o enfrentamento à emergência no clima e para possibilidades de vida em harmonia com o planeta.

Página do jornal O Globo mostra Ane Alencar entre os 101 brasileiros moldando o futuro (Reprodução)
“Fico muito grata ao jornal O Globo por esse reconhecimento, resultado de anos de trabalho dedicados principalmente ao tema do fogo”, ela comenta. “Os incêndios florestais no Brasil são um tema crucial para o sucesso das políticas climáticas. Sem controle do fogo, não é possível avançar em medidas necessárias para a saúde das pessoas e da natureza, colocando em prática o desenvolvimento sustentável do qual tanto falamos”.
Otimista inquieta
Alencar começou sua carreira no IPAM como estagiária – quando a instituição sequer tinha nome – e hoje lidera uma equipe de mais de 60 cientistas, em diversas partes do Brasil e do mundo, especializados em diferentes temas.
“Os desafios nunca foram tão grandes, mas também nunca produzimos tanto conhecimento, tecnologias e experiências bem-sucedidas para enfrentá-los. Por isso, me considero uma otimista inquieta. O problema já não é falta de soluções, mas de velocidade e de prioridade política para colocá-las em prática. Ainda há tempo para mudar essa trajetória, mas a janela de oportunidade está se fechando rapidamente”, diz.
Natural de Belém, Alencar é graduada em Geografia pela UFPA (Universidade Federal do Pará), tem mestrado em Sensoriamento Remoto e Sistema de Informação Geográfica pela Universidade de Boston e doutorado em Recursos Florestais e Conservação pela Universidade da Flórida, ambas nos Estados Unidos.
Cicatrizes e sonhos
Em 1996, em um de seus primeiros trabalhos, Alencar criou o conceito de “cicatrizes do fogo” ao definir áreas queimadas por incêndios florestais na Amazônia nas imagens de satélite impressas. A descoberta levou ao desenvolvimento de iniciativas como o MapBiomas Fogo, uma rede de organizações, coordenada por ela, que produz um mapeamento anual das cicatrizes do fogo em todo o território nacional.

Ane Alencar durante o trabalho com as cicatrizes do fogo, em 1996 (Acervo IPAM)
A diretora já recebeu reconhecimentos internacionais ligados ao tema do fogo e ao uso da tecnologia na ciência de uso da terra. Foi a primeira pesquisadora da América Latina a integrar a lista das Mulheres Líderes em Aprendizado de Máquina para Observação da Terra, em 2022. Já em 2018, foi citada pela revista científica Fire como uma das líderes mundiais na ciência sobre o fogo.
“Meu maior sonho é contribuir para que os incêndios florestais deixem de ser uma ameaça às florestas tropicais. Sonho em ver a prevenção e o manejo integrado do fogo se consolidarem como políticas públicas permanentes, permitindo que possamos proteger essas florestas, as pessoas que vivem nelas e o papel fundamental que desempenham na estabilidade do clima do planeta”, conclui.
