“Precisamos promover em escala o desenvolvimento sustentável”

29 de junho de 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

jun 29, 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

Em um momento marcado pela preparação para a COP31 e pelo fortalecimento da agenda climática internacional, a II Semana do Clima da Amazônia busca ampliar a participação dos atores amazônicos na construção de soluções para a crise do clima.

A Um Grau e Meio da quinzena entrevista Lucimar Souza, diretora de Desenvolvimento Territorial do IPAM, sobre a importância dos eventos sobre clima na região, o papel das populações amazônicas na construção de respostas para os desafios ambientais e a necessidade de ampliar investimentos em desenvolvimento sustentável.

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A II Semana do Clima da Amazônia ocorre em um momento de crescente protagonismo da região nos debates internacionais. O que significa discutir soluções climáticas a partir da Amazônia e não apenas sobre a Amazônia?

A importância disso está relacionada ao que a Amazônia representa. Nós estamos falando de um bioma que ocupa quase 50% do território nacional. É a maior floresta tropical do mundo e tem um papel significativo para a agenda agropecuária.

A Amazônia contribui com a produção de grãos, com a pecuária, com a sociobioeconomia. Podemos citar a cadeia do açaí e a cadeia do cacau como exemplos. Além disso, há a pesca, o extrativismo e uma série de atividades que se relacionam diretamente com a agenda climática.

Não dá para fazer uma discussão ambiental global sem considerar a importância da Amazônia. A sociedade amazônica sempre esteve inserida nesse debate. Se olharmos a história das COPs e das próprias Semanas do Clima realizadas em outras partes do mundo, veremos que a Amazônia sempre esteve presente de alguma forma.

Quando você traz uma COP para dentro da Amazônia, você inverte um pouco essa lógica. Você traz a discussão para dentro da região e isso tem uma importância enorme porque possibilita ampliar a participação. Nem todo mundo consegue sair da Amazônia para participar de uma Rio-92, de uma Semana do Clima em Nova York, de uma COP em Dubai ou de uma Semana do Clima em Londres.

E isso é importante porque precisamos escutar os desafios amazônicos relacionados à promoção do desenvolvimento sustentável, mas também ouvir as soluções que a Amazônia tem para oferecer. O ponto-chave é ampliar a participação e a escuta dessas vozes de um território chave para a agenda climática global.

Na sua avaliação, qual é a principal contribuição que a Amazônia pode oferecer ao mundo no enfrentamento da crise climática?

A própria existência da floresta já é uma grande contribuição. A Amazônia também tem um papel na dinâmica das chuvas, que favorece a atividade produtiva do Brasil. Essa contribuição da floresta para o regime de chuvas e a importância dessas chuvas para a produção agropecuária brasileira são características fundamentais.

Mas eu acho que existem também as soluções. Há uma forma amazônica de produzir, baseada no extrativismo, que pode servir de referência. Existe um esforço crescente de produção em sistemas agroflorestais que também pode servir de referência. Há aprendizados das populações amazônicas que podem inspirar outras regiões.

Além disso, todas as iniciativas voltadas ao controle do desmatamento também representam uma contribuição importante. Dá para fazer uma lista grande. A Amazônia tem muito a oferecer.

A sua trajetória está ligada ao manejo comunitário e ao desenvolvimento sustentável. Que lições as comunidades amazônicas podem trazer às discussões da Semana do Clima da Amazônia?

A população amazônica tem uma relação com a floresta, com os rios e com os recursos naturais de um modo geral que precisamos observar com atenção.

As populações amazônicas possuem estratégias de manejo de rios e florestas que podem servir de inspiração. Isso não significa que não existam desafios. Existem muitos problemas. Mas há aprendizados importantes de manejo das florestas que podem trazer contribuições relevantes para a agenda socioambiental e para a agenda climática. Existe também uma outra questão importante: as soluções precisam ser pensadas em conjunto.

Eu sempre uso a restauração como exemplo. Para restaurar uma área, precisamos que quem detém a terra faça adesão à iniciativa. Seja um agricultor, um extrativista, um quilombola, um pequeno produtor, um médio produtor ou um pecuarista. Para que essa adesão aconteça, a iniciativa precisa ser discutida com essas pessoas.

Não podemos partir sempre do pressuposto dos interesses de atores externos. Se a execução das ações depende da adesão de quem está na região, então as soluções precisam ser pensadas conjuntamente.

Precisamos encontrar modelos que atendam aos anseios de todas as partes. Não pode ser algo que funcione apenas para quem está no Sudeste ou no Centro-Oeste do Brasil e que não faça sentido para as populações amazônicas. Da mesma forma, se for bom apenas para as populações amazônicas e não contribuir para os desafios globais, também não resolve o problema.

Como garantir que povos indígenas, comunidades tradicionais e populações locais participem de forma efetiva da construção das soluções debatidas nesses espaços?

A COP30 marca um movimento importante nesse sentido ao trazer esse debate para dentro da Amazônia. A Semana do Clima da Amazônia também é uma forma de fortalecer esse processo. Mas além de trazer os grandes debates para dentro da região, é preciso promover mais espaços de diálogo na própria Amazônia. Também é necessário garantir a participação das pessoas nesses eventos. Não basta realizar uma COP na Amazônia e depois olhar para os espaços de discussão e não encontrar amazônidas participando deles.

O IPAM tem feito esse esforço. Na Semana do Clima da Amazônia, uma parte da nossa contribuição tem sido justamente apoiar a participação de pessoas da região. Fizemos isso durante a COP30 e vamos repetir agora na segunda edição da Semana do Clima.

Essa é uma diretriz institucional antiga. Se você observar a história das COPs, verá que o IPAM sempre faz um esforço para levar pessoas para participar desses espaços.

Manter esse esforço é fundamental. E mais do que discutir quem o IPAM leva, é importante que outras instituições também façam o mesmo movimento e garantam a presença efetiva das populações amazônicas nos grandes eventos.

Alguns dos painéis envolvem temas como bioeconomia e desenvolvimento sustentável. Quais condições são necessárias para que essas iniciativas criem benefícios reais para quem vive na região?

A primeira condição é a garantia do acesso à terra. Também considero fundamental oferecer assistência técnica regular e de qualidade. A Amazônia ainda enfrenta problemas de produtividade em alguns sistemas produtivos e a assistência técnica é importante tanto para encontrar soluções quanto para melhorar os resultados dessas atividades.

Outro ponto fundamental é garantir preços justos para os produtos. Não adianta construir uma estratégia de extrativismo do açaí, por exemplo, que seja ambientalmente sustentável, respeite as normas ambientais e fundiárias e, na hora de colocar o produto no mercado, a família extrativista não consiga uma remuneração adequada.

Por isso, acesso ao mercado e preços justos são peças fundamentais dentro da dinâmica da bioeconomia. O crédito também é importantíssimo. Mas quando existe mercado e existe preço adequado, isso já produz um impacto muito relevante.

Precisamos discutir, por exemplo, a precificação de produtos produzidos em sistemas agroflorestais. Será que não é possível pensar em um diferencial de preço para um cacau produzido em sistema agroflorestal em comparação com um cacau produzido em monocultura?

Estou usando o cacau apenas como exemplo, mas essa lógica pode ser aplicada a outros produtos. Essa discussão sobre precificação é um tema importante para fortalecer a bioeconomia e o desenvolvimento sustentável.

O tema da justiça climática tem ganhado força nos últimos anos. Como ele se manifesta na realidade amazônica e por que deve estar no centro das discussões climáticas?

Vamos pegar uma população ribeirinha como exemplo. Durante um episódio de seca extrema, o acesso a serviços básicos pode ser comprometido porque os rios secam. Isso significa que crianças podem ter menos dias letivos, que o acesso a medicamentos pode ser prejudicado e que diversos serviços deixam de chegar a determinadas comunidades.

Precisamos discutir como os impactos dos eventos climáticos extremos afetam diferentes populações de formas distintas. Se tivermos um episódio de seca extrema, por exemplo, o aumento dos preços dos alimentos afetará muito mais as famílias de menor renda do que aquelas que possuem mais recursos. Por isso, esse é um tema fundamental.

Uma comunidade ribeirinha pode passar quatro ou cinco meses sem acesso regular à escola, a medicamentos ou a programas de saúde por causa de uma seca extrema. Uma população urbana dificilmente sofrerá esse mesmo impacto.

Por isso, a justiça climática precisa estar no centro do debate. É preciso olhar para a forma como secas, enchentes e outros eventos extremos atingem grupos diferentes.

Esse é o centro da discussão sobre justiça climática: compreender que os impactos não são iguais para todos e pensar em maneiras de evitar que determinados grupos sejam muito mais prejudicados do que outros.

Pensando na preparação para a COP31 e nos próximos anos, qual mensagem você espera que a Semana do Clima da Amazônia deixe para os tomadores de decisão no Brasil e no mundo?

A principal mensagem que a Semana do Clima da Amazônia pode deixar é que já existem soluções. Claro que ainda existem soluções a serem pensadas e idealizadas. Não existe limite para isso. Mas nós já temos soluções e já temos mapas do caminho à disposição.

O que precisamos é de investimento. Precisamos de uma decisão global de investimento sério na implementação dessas soluções. Os modelos tradicionais e convencionais aplicados até agora têm mostrado suas deficiências. Quando falamos em investir na agenda socioambiental e na promoção do desenvolvimento sustentável, ainda somos muito deficientes nisso.

Se conseguirmos deixar um alerta sobre a necessidade de que governos e grandes corporações entendam a importância de investir efetivamente na promoção do desenvolvimento sustentável, essa já será uma grande mensagem.

É preciso investir na promoção do desenvolvimento sustentável. Ele não vai acontecer acidentalmente. E nós não temos mais tempo para trabalhar em iniciativas pontuais. Precisamos trabalhar em escala na promoção do desenvolvimento sustentável.

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Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

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