“Estimativa de emissões para a Copa do Mundo equivale a algumas semanas das emissões brasileiras”

1 de junho de 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

jun 1, 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

Grandes eventos costumam chamar a atenção pelo volume de emissões que geram. No entanto, quando comparadas ao cenário global, essas emissões representam uma pequena fração do total liberado pelos países que mais contribuem para a crise climática.

Diante dos esforços internacionais para reduzir a emissão de gases de efeito estufa, é fundamental discutir de onde vêm essas emissões, como diferentes matrizes energéticas influenciam esse processo e de que forma a pressão internacional se distribui entre países ricos e em desenvolvimento. Também é necessário refletir sobre os diferentes caminhos possíveis para enfrentar a crise climática.

Nesta edição, a Um Grau e Meio entrevista Bárbara Zimbres, pesquisadora do IPAM e integrante da equipe de estudo de Mudanças no Uso da Terra do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa), sobre a dimensão e os perfis de emissões dos países envolvidos na Copa do Mundo.

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Um estudo da University of Lausanne projeta que a Copa do Mundo poderá emitir entre 5 e 9 milhões de toneladas de CO₂. Em comparação com as emissões brasileiras, a que esse volume equivale?

Essa estimativa corresponde a algumas semanas das emissões totais do Brasil, que ultrapassam bilhões de toneladas anuais. Assim, embora seja um volume expressivo em termos absolutos, ele se torna relativamente pequeno quando comparado às emissões nacionais ou globais.

EUA, Canadá e México ocupam atualmente a 2ª, 11ª e 12ª posições no ranking global de emissões de CO₂, respectivamente. Quais são as principais fontes dessas emissões em cada um desses países e como isso difere das emissões brasileiras?

Estados Unidos, Canadá e México figuram entre os maiores emissores globais principalmente devido às suas matrizes energéticas, historicamente dependentes de combustíveis fósseis. Nesses países, setores como geração de energia, transporte e indústria concentram grande parte das emissões. No Brasil, embora energia e transporte também contribuam significativamente, a principal fonte histórica de emissões é o desmatamento e a mudança do uso da terra.

Isso torna a redução das emissões brasileiras mais simples ou mais complexa?

Essa característica do perfil de emissões brasileiro pode parecer, à primeira vista, comparativamente mais simples de enfrentar, mas continua sendo um desafio complexo. Por um lado, ações coordenadas de fiscalização e vontade política podem produzir reduções rápidas e significativas nas taxas de desmatamento. Por outro, a solução duradoura do problema envolve questões estruturais da sociedade brasileira, como pressão econômica sobre a floresta, expansão da fronteira agrícola e conflitos fundiários, fatores que não se resolvem apenas com tecnologia ou medidas de comando e controle.

No caso do Brasil, quais medidas seriam mais eficazes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa?

No contexto brasileiro, as medidas mais eficazes e sustentáveis incluem o combate rigoroso ao desmatamento ilegal, a restauração florestal, o incentivo à agropecuária de baixo carbono e a ampliação da participação de energias renováveis na matriz energética.

Existe uma tendência internacional de maior cobrança sobre países tropicais pelo desmatamento, enquanto países industrializados recebem menos pressão sobre combustíveis fósseis? Como isso afeta o debate climático?

Há, de fato, uma tendência de maior cobrança sobre países tropicais em relação ao desmatamento, enquanto países industrializados frequentemente enfrentam pressões mais difusas sobre o uso de combustíveis fósseis. Isso pode distorcer o debate climático, porque, embora países em desenvolvimento tenham grande responsabilidade sobre práticas atuais de uso predatório da terra, a crise climática está profundamente ligada ao histórico de industrialização e às emissões acumuladas dos países ricos ao longo dos últimos dois séculos.

 

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