Publicação inédita reúne técnicas para o combate ao fogo na Amazônia

29 de julho de 2026 | Notícias

jul 29, 2026 | Notícias

Por Mayara Subtil*

As mudanças climáticas vêm modificando a dinâmica do fogo na região amazônica. Com secas extremas cada vez mais frequentes, o fogo consegue entrar nas florestas e causar incêndios que exigem novas estratégias para proteger um dos ecossistemas mais biodiversos do planeta.

Frente a esse desafio, o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), em parceria com a Universidade de Oxford, a Universidade de Lancaster e a Rede Amazônia Sustentável, lançou o livreto Combate aos Incêndios Florestais da Amazônia: Florestas Ombrófilas Densas, primeira publicação voltada às técnicas de combate a incêndios em florestas tropicais úmidas da Amazônia.

Acesse aqui a publicação.

Desenvolvido para apresentar as técnicas de combate, os desafios e as soluções encontradas pelos brigadas que atuam na linha de frente, o livreto é o número um da coleção Combate aos Incêndios Florestais da Amazônia, composta por quatro volumes dedicados às florestas ombrófilas densas, florestas ombrófilas abertas, florestas alagadas e florestas degradadas. A previsão é de que as outras edições sejam lançadas até o fim de 2026.

Resultado de um processo colaborativo com cerca de 60 autores, o material sistematiza conhecimentos construídos por brigadistas voluntários e institucionais, pesquisadores e representantes do PrevFogo, do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), além de ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e MMA (Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima).

Segundo Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM, a publicação representa um avanço inédito para o combate aos incêndios em florestas tropicais.

“Essas florestas não deveriam estar queimando. Mas, diante das mudanças climáticas e dos eventos extremos, tornou-se fundamental construir conhecimento específico sobre como combater incêndios nesse ambiente. O livreto parte desse pressuposto e constrói essas técnicas de baixo para cima, incorporando a experiência de brigadistas, pesquisadores e gestores”, reforçou.

Florestas Ombrófilas Densas

As florestas ombrófilas densas são o tipo de vegetação predominante na Amazônia. Caracterizam-se pela copa fechada das árvores, elevada umidade e grande diversidade de espécies.

Essas características fizeram com que, durante muito tempo, fossem consideradas ambientes pouco suscetíveis ao fogo. No entanto, os efeitos cada vez mais extremos da crise climática tornou essas florestas inflamáveis, exigindo medidas específicas para impedir os danos ambientais e o aumento da segurança das equipes em campo.

A publicação segue a organização estabelecida pelos órgãos de comando e controle nas operações de combate dos incêndios florestais, com o diferencial de considerar as características da vegetação amazônica. O livreto destaca a construção das linhas de defesa como principal método de combate: a remoção de todo o combustível do solo, como folhas, galhos, troncos e raízes, em formato de linha para impedir que a chama continue avançando na floresta. A publicação também destaca o papel das comunidades nesse processo, cujo conhecimento do território contribui, por exemplo, para identificar trilhas, rios, áreas prioritárias para proteção e riscos relacionados ao garimpo, mineração e conflitos fundiários.

O livreto também instrui métodos de identificação e diminuição de riscos, como a localização de árvores ocas, troncos e outros materiais em brasa com potencial de reignição. Essas informações permitem acompanhar a evolução da operação e são fundamentais para garantir o fim do incêndio florestal.

Na avaliação do brigadista voluntário João Romano, da Brigada de Incêndio Florestal de Alter do Chão, a publicação preenche uma lacuna histórica na formação das equipes que atuam no bioma.

“A gente não tinha nenhuma publicação que tratasse do combate a incêndios na Amazônia. Para nós, é muito interessante a gente olhar e colocar isso nesse livreto, mostrando as técnicas, as ferramentas que são utilizadas e olhando dessa perspectiva dos diferentes tipos de florestas que temos na Amazônia”, concluiu.

Redução não elimina riscos

O livreto foi lançado no mesmo dia em que o Relatório Anual do Fogo no Brasil revelou redução de 58% na área queimada no país em 2025, na comparação com o mesmo calendário anterior. No total, 12,7 milhões de hectares foram atingidos, o menor registrado desde 2018 e um resultado 31% abaixo da média histórica anual.

Na Amazônia, as chamas atingiram 3,1 milhões de hectares, a menor área queimada registrada nos 41 anos da série histórica e uma redução de 80% em relação a 2024. A queda ocorreu após o retorno das chuvas regulares, que elevaram a umidade da vegetação depois das secas extremas provocadas pelo El Niño em 2023 e 2024.

Apesar da melhora, o cenário requer atenção. O aumento da vegetação durante o período mais úmido pode gerar acúmulo de biomassa, que funciona como combustível em caso de novas estiagens associadas ao uso indiscriminado do fogo. Além disso, a reincidência de incêndios na Amazônia intensifica a degradação, torna as florestas mais inflamáveis e reforça a necessidade de prevenção, monitoramento e técnicas de combate adaptadas às características do bioma.

*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br

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