Suellen Nunes*
O lançamento do livro “Bioindústria na Amazônia: Contribuições para o desenvolvimento sustentável na Amazônia Legal”, publicação desenvolvida em parceria entre o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e a ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), integrou a programação da 3ª edição do Bioeconomy Amazon Summit 2026, realizada entre os dias 12 e 15 de maio, em Belém (PA). O evento tratou sobre bioeconomia, inovação, desenvolvimento territorial e políticas públicas voltadas à Amazônia, reunindo representantes do setor produtivo, governos, pesquisadores e organizações da sociedade civil.
A publicação foi apresentada durante um painel promovido pelo IPAM e pela ABDI, realizado na tarde de terça-feira (12), no Teatro Maria Sylvia Nunes, na Estação das Docas. A obra destaca que a bioeconomia amazônica depende da valorização da sociobiodiversidade, do fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis e da ampliação da capacidade de processamento e agregação de valor nos próprios territórios amazônicos.

O estudo também aponta que a bioindústria pode atuar como um elo entre biodiversidade, conhecimento tradicional, ciência e mercado, promovendo inclusão produtiva, geração de renda local e fortalecimento das economias territoriais. Entre os desafios identificados estão limitações logísticas, acesso restrito a financiamento, baixa capacidade de processamento local e necessidade de políticas públicas adaptadas às diferentes realidades da Amazônia Legal.
“Os dados mostram que a bioindústria amazônica já movimenta milhares de pessoas e cadeias produtivas em toda a região, com mais de 11 mil empreendimentos formais mapeados”, afirma Gabriela Savian, diretora de Políticas Públicas do IPAM. “Para além dos gargalos estruturais historicamente conhecidos na Amazônia, existe também uma grande lacuna de informações sobre os empreendimentos da sociobiodiversidade. Se identificamos mais de 11 mil empreendimentos formais, existem milhares de outros negócios atuando de maneira informal nos territórios amazônicos. Muitas vezes, as políticas públicas ainda operam em uma lógica convencional, que não acompanha as dinâmicas e especificidades desses novos empreendimentos e negócios da bioeconomia”, explica a diretora.

Segundo Savian, fortalecer a bioindústria na Amazônia Legal passa pela ampliação do acesso a crédito, regularização fundiária e fortalecimento das organizações sociais e cadeias produtivas da sociobiodiversidade. “A Amazônia exige soluções conectadas à diversidade dos territórios. Não podemos trabalhar apenas com modelos prontos e pasteurizados de negócios”, destacou.
A ABDI atua no apoio à formulação de estratégias para ampliar a inovação e a competitividade da indústria brasileira, incluindo iniciativas ligadas à bioeconomia. “Esse livro é resultado de um trabalho construído ao longo dos últimos dois anos, reunindo dados, pesquisas e levantamentos realizados nos nove estados da Amazônia Legal. A publicação mostra a dimensão da bioindústria amazônica a partir do mapeamento de empreendimentos e cria oportunidades para novos investimentos, fortalecimento de cadeias produtivas, desenvolvimento de produtos e geração de valor nos territórios amazônicos”, afirmou Ricardo Martins, representante da ABDI.
Para Ellen Acioli, especialista em Amazônia do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) que participou do lançamento, o estudo contribui para ampliar a compreensão sobre a organização dos negócios da sociobiodiversidade na Amazônia e reforça o papel estratégico da bioeconomia no cenário global.

”A partir dessa pesquisa e desse processo de coleta de dados, foi possível abrir uma espécie de ‘caixa de Pandora’ para compreendermos como os negócios da sociobiodiversidade se organizam industrialmente na Amazônia. A bioeconomia já é uma agenda global e, quando olhamos para a Amazônia, entendemos que esse debate ganha uma dimensão geopolítica estratégica para o futuro. Pensar esse futuro também exige reconhecer a biodiversidade como potencial econômico e vantagem competitiva para o desenvolvimento sustentável da região”, afirma Acioli.
Debates sobre políticas públicas e desenvolvimento territorial
Durante os três dias de programação do BAS 2026, o IPAM participou de debates sobre políticas públicas, desenvolvimento urbano, agricultura regenerativa e fortalecimento da bioeconomia amazônica.
Na terça-feira (12), primeiro dia da programação, Gabriela Savian representou o Instituto no painel “Bioeconomia como caminho de transformação socioeconômica da Amazônia por meio de políticas públicas”, no Parque da Bioeconomia.

“A gente ainda tem políticas públicas e modelos econômicos que olham para a bioeconomia a partir de padrões externos, muitas vezes sem considerar a diversidade dos territórios amazônicos. O desafio é equilibrar geração de renda, fortalecimento das cadeias produtivas e desenvolvimento econômico com a sustentabilidade dos recursos naturais, os modos de vida e as práticas tradicionais das comunidades locais. É preciso construir soluções conectadas à realidade da Amazônia”, finalizou Savian.
Na quarta-feira (13), a pesquisadora de Políticas Públicas do IPAM, Rafaela Reis, participou do fireside chat “Bioeconomia na Cidade”. O debate abordou a relação entre bioeconomia, desenvolvimento urbano, infraestrutura, inovação e o papel estratégico das cidades amazônicas na construção de uma nova economia baseada na floresta.

“Precisamos pensar em amazonizar a bioindústria, e não apenas replicar modelos externos na Amazônia. O estudo mostra que a bioindústria amazônica está profundamente conectada aos territórios, às cadeias da sociobiodiversidade e às dinâmicas urbanas da região. A bioeconomia e a bioindústria também cumprem um papel estratégico ao conectar floresta e cidade por meio da geração de empregos, do fortalecimento dos mercados locais e do estímulo a uma transição ecológica e econômica sustentável e de longo prazo. Fortalecer essa agenda exige soluções adaptadas à realidade amazônica, considerando desde infraestrutura e inovação a organização social, agregação de valor e acesso a mercados”, destacou Rafaela Reis, pesquisadora do IPAM.
Na quinta-feira (14), a pesquisadora e coordenadora regional do IPAM na Transamazônica e Xingu, Elisangela Trzeciak, esteve no painel “Capacitação e Assistência Técnica para agricultura regenerativa em escala”, realizado no Parque da Bioeconomia.

Para a pesquisadora, os projetos “no chão” ajudam a gerar aprendizados que podem ser transformados em políticas públicas. “Na região da Transamazônica e Xingu, o IPAM atua em 9 municípios, desenvolvendo ações que unem restauração florestal, fortalecimento organizacional, geração de renda e desenvolvimento territorial. O Sustenta e Inova é um dos projetos executados pelo IPAM no território, que defende que modelos de regeneração precisam considerar as especificidades de cada território amazônico e integrar produção e conservação.’’
Projeto Sustenta e Inova cria laços com a bioeconomia

O IPAM marcou presença ao lado de beneficiários do projeto Sustenta & Inova, que apresentaram produtos e experiências aos participantes do evento. Financiada pela União Europeia e coordenada pelo (SEBRAE) Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, a iniciativa na região da Transamazônica busca desenvolver e implementar práticas agrícolas sustentáveis e inovadoras, além de promover o fortalecimento das cadeias de valor da Amazônia. O Livro de Bioindústrias também recebeu destaque no lançamento durante um coquetel realizado na sede da FIEPA (Federação das Indústrias do Estado do Pará), durante o primeiro dia de programação.
Com assistência técnica do Instituto, o Sustenta & Inova atende 250 famílias agricultoras, 18 empreendimentos da agricultura familiar e apoia as gestões municipais de meio ambiente e agricultura em seis municípios da área da Transamazônica. Além da atuação direta no território, o projeto também contribui para estratégias de fortalecimento da bioeconomia no Pará por meio do apoio à construção de políticas públicas e do ambiente de negócios voltado à sociobiodiversidade amazônica.

Como estratégia, a escalabilidade das ações desenvolvidas na região, o programa vem atuando desde o início do projeto junto ao arcabouço político da bioeconomia no estado. Entre as contribuições estão o apoio à Estratégia Estadual de Bioeconomia do Pará, lançada durante o Fórum Mundial de Bioeconomia em 2021, além da participação na construção do (PlanBio) Plano Estadual de Bioeconomia. O projeto também contribuiu para o desenvolvimento conceitual inicial do Parque de Bioeconomia, iniciativa voltada ao fortalecimento da inovação, agregação de valor e atração de investimentos sustentáveis para a Amazônia.
Beneficiária do programa, a produtora de cacau do Brasil Novo, Iradir Frutuoso, compartilha a trajetória de crescimento de seu trabalho. “São três anos desde que construímos a fábrica, com muito esforço e dedicação, sempre trabalhando com cacau orgânico e buscando qualidade em cada produto. O nosso chocolate 50% com café é um dos que mais representa esse cuidado. Ver nossos produtos ganhando espaço e reconhecimento é motivo de muito orgulho, e as parcerias e o apoio que recebemos têm sido fundamentais para fortalecer e dar continuidade a esse trabalho”, finaliza.
Analista de Comunicação do IPAM*




