*Por Nikole Cantoara
Referência em restauração de ecossistemas, Breno Amajunepa, jovem indígena da comunidade Balatiponé Umutina, transforma o conhecimento tradicional em ação concreta diante da crise climática. Recentemente, foi selecionado para o programa internacional Restoration Stewards 2026, promovido pelo GLF (Global Landscapes Forum).
Do povo Balatiponé-Umutina, Breno foi criado na Terra Indígena Umutina, em Mato Grosso, próximo ao município de Barra do Bugres. Desde cedo, acompanhava os avós nas atividades da roça e aprendeu a plantar, colher e manejar a terra por meio dos sinais da natureza.
Nesse sistema, segundo ele, cada elemento tem seu tempo e função. “Para nós, a natureza é como uma mãe. É dela que vêm o alimento, o abrigo e a medicina”, explica o jovem, que reforça uma visão de cuidado e interdependência que orienta não só o modo de viver da comunidade, mas também estratégias no campo.
Ainda na infância, Breno ouviu dos mais velhos alertas sobre transformações no clima e previsões que hoje se confirmam no cotidiano da comunidade. “Com o tempo, esses sinais se tornaram realidade: rios que secam, solos mais áridos, queda na produção de alimentos e aumento dos incêndios passaram a fazer parte da realidade local”, relata.
Esse cenário, somado ao seu engajamento na defesa dos territórios indígenas, consolidou seu caminho de atuação e fortaleceu seu compromisso em contribuir não apenas com seu povo, mas com a proteção do meio ambiente.
A partir de 2025, Breno passou a integrar o grupo de pesquisa Juventude pelo Clima, iniciativa criada com apoio do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) em parceria com a Cultural Survival. Inserido nesse espaço, ele iniciou um processo de escuta dentro da própria comunidade, identificando os principais impactos e definindo, de forma coletiva, as prioridades de ação.
A iniciativa atua principalmente na recuperação de nascentes e de áreas degradadas pelo fogo, articulando conhecimento tradicional e apoio técnico. As atividades são realizadas em mutirões que envolvem estudantes, lideranças e anciãos, fortalecendo práticas já existentes na comunidade. O plantio de espécies nativas, a proteção de cursos d’água e o cuidado com o solo integram esse esforço coletivo.
Esse trabalho foi um dos fatores que levaram à seleção de Breno para o programa Restoration Stewards, valorização que, segundo ele, ultrapassa o âmbito individual. “É o reconhecimento do meu povo, da nossa história de resistência”, afirma.
A partir desse entendimento coletivo, Breno reforça a necessidade de fortalecer novas lideranças. ”O papel da juventude indígena é central nesse processo, não como promessa futura, mas como agente do presente”, completa.

