Presidente da Associação Cultural Indígena Kapot Jarinã e jovem indígena, Betikre Tapayuna defende a cultura e o bem-estar de seu território, localizado na Terra Indígena do Xingu.
Em entrevista à newsletter Um Grau e Meio, Betikre destaca as soluções indígenas para a crise climática, os novos desafios para a juventude, a cooperação com organizações não indígenas e a preparação para o ano eleitoral.
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O Acampamento Terra Livre de 2026, além da luta pelos direitos indígenas, também se propôs a discutir as soluções dos povos originários para a crise climática. Como essa crise tem afetado a rotina nos territórios e quais respostas vocês têm encontrado?
O ATL é muito importante para nós porque reúne povos de várias etnias e de todas as partes do Brasil, fortalecendo nossa luta. Essa luta faz parte de nossa vida e une todos os povos. A crise climática é muito intensa e tem chegado com cada vez mais força aos territórios, o que nos preocupa muito.
Nós, da nova geração, temos que manter viva essa luta que vem de nossos antepassados. Ela passa pela conservação das matas, mas, entre os mais jovens, também temos nos preocupado mais com a colaboração com pesquisadores e com a produção de ciência. É uma nova frente de atuação que encontramos para combater a crise climática.
Também temos nos dedicado ao combate aos incêndios, que antes não invadiam nossa terra, mas agora se tornaram frequentes. Estamos organizando brigadas para dar respostas mais rápidas ao fogo e proteger nosso território.
Essa luta é contínua e vem de nossos conhecimentos ancestrais. Nossos avós nos transmitiram esses saberes, e precisamos manter essa espiritualidade viva e adaptá-la para enfrentar os novos desafios que surgem com o tempo.
O IPAM tem trabalhado com sensores de qualidade do ar para medir essa invasão das queimadas nos territórios tradicionais. Como você acha que isso ajudaria a organização da sua comunidade?
Com equipamentos como esse, teremos uma noção melhor do que está acontecendo em nossa região. Não vemos o ar nem a poluição, mas eles afetam nosso corpo e nosso sangue diariamente.
Sabemos que o ar tem mudado. As comunidades passaram a ter doenças diferentes, que antes só ouvíamos falar. Antes não havia casos de câncer na aldeia, mas agora já existem. Por isso, dados como esses são muito importantes para entendermos a que estamos sendo expostos e como podemos nos proteger.
Nos últimos anos, temos enfrentado dias seguidos com a aldeia coberta de fumaça e incêndios invadindo o território. Isso prejudica principalmente os idosos, que já estão mais vulneráveis.
E como pessoas e organizações não indígenas podem ampliar essa voz e essa busca por respostas?
Para nós, essa colaboração é muito importante. A luta é de todos, e devemos seguir juntos. Temos um conhecimento ancestral diferenciado. Pessoas não indígenas e estrangeiros contribuem com seus saberes e formas de pensar, e assim seguimos juntos.
São novas ferramentas que nos ajudam a ampliar nossa voz por meio de tecnologias, conhecimentos e espaços que vêm sendo ocupados. Somamos forças para enfrentar aqueles que querem desmatar, invadir terras indígenas e implementar grandes empreendimentos sem sustentabilidade ou consulta aos povos.
Isso foi muito importante, por exemplo, na mobilização em torno do Marco Temporal, pois nos permitiu enfrentar o problema em várias frentes.
Em ano eleitoral, como você e sua organização têm se preparado para responder a ataques e pautar as demandas indígenas nos debates?
Reuniões como o ATL são ainda mais importantes nesses contextos, justamente porque nos permitem identificar e nos posicionar contra políticas que vão contra nossos interesses.
Também temos buscado garantir que os acordos firmados com governantes não beneficiem apenas os políticos, mas tragam vantagens concretas para nossos povos. Estamos nos organizando para mostrar que não apoiamos automaticamente governos: temos demandas que precisam ser atendidas.
Temos aproveitado o período eleitoral para que nosso conhecimento, nossa voz e nossos saberes ancestrais sejam ouvidos na formulação de políticas públicas que nos afetam diretamente.
E o que você gostaria que o eleitor tivesse em mente na hora de votar?
Gostaria de pedir que os povos indígenas sejam respeitados e lembrados. Queremos sobreviver, como todos. Se desmatarmos tudo e acabarmos com os rios, ninguém sobreviverá. O mundo não resistirá.
A mudança climática já é muito severa, e precisamos parar de pensar que esse problema vai desaparecer sozinho. É urgente interromper a exploração do meio ambiente e os ataques aos direitos indígenas.