“Uma nova sociedade se constrói com novos exemplos igualitários”

9 de março de 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

mar 9, 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

Sara Leal*

Jornalista premiada com mais de duas décadas em cobertura de temas ambientais, Paulina Chamorro conduz o Vozes do Planeta, podcast pioneiro no Brasil em temas ambientais.

É uma das fundadoras da Liga das Mulheres pelos Oceanos, movimento que conecta 2.500 mulheres em prol do oceano e dos direitos femininos; e do projeto multimídia Mulheres na Conservação.

Por meio de podcast, webserie, reportagens e filme, a iniciativa conta histórias de mulheres pesquisadoras que lideram projetos de conservação ambiental no Brasil.

Em entrevista à Um Grau e Meio, Chamorro fala sobre como surgiu o projeto, por que fazer esse recorte de gênero e suas descobertas no processo de produção.

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Como surgiu a ideia da iniciativa Mulheres na Conservação?

A primeira ideia veio do João Marcos Rosa, fotógrafo. Ele entrou em contato comigo, nós conversamos e eu trouxe o componente multimídia para fazer um projeto que fosse reportagem, podcast e websérie.

A National Geographic topou publicar as reportagens e, antes de termos um contrato assinado com a Fundação Toyota do Brasil, que ficou encantada com a iniciativa, já fomos ao Pantanal para aproveitar uma oportunidade única de acompanhar duas mulheres em campo: Patrícia Mendes e a Neiva Guedes.

Então, arrumamos as malas para fazer do jeito que a gente sabe. Uma ideia e um sonho. E foi uma semana de campo incrível. Quando voltamos, a National Geographic já publicou as duas reportagens, o contrato com a Toyota já havia andado e iniciamos o podcast e a websérie, que foi um grande momento de as pessoas verem essas mulheres em ação.

Fomos a campo para acompanhar mais cinco personagens para a primeira temporada, que depois se renovou para uma segunda, terceira temporada e assim por diante.

 

Por que fazer esse recorte de gênero relacionado a pesquisas e ativismo na conservação?

Porque, com nossas experiências de campo, João e eu percebemos que a maioria dos projetos de conservação de longo prazo são liderados por mulheres – foram criados e tocados por elas.

Percebemos que a comunicação sobre isso estava falha. Fala-se em “exploradores”, mas por que não “exploradoras”, se são mulheres que estão em campo fazendo isso?

Conhecemos e falamos sobre as “gringas”, sendo que no país mais biodiverso do mundo, que é o Brasil, temos as nossas mulheres. Quantas Jane Goodall temos aqui que estão salvando espécies? E como essas histórias não foram contadas.

A gente brinca que quer fazer um álbum de figurinhas para meninos e meninas poderem olhar e dizer: “Caramba, eu quero ser uma Flávia Miranda”. Uma nova sociedade se constrói com novos exemplos, e esses exemplos têm que ser igualitários.

 

Como foi o processo de contar as histórias dessas mulheres?

Para mim, particularmente, foi desafiador construir uma história falando do trabalho, mas também da vida pessoal, porque as reportagens tratam um pouco de uma vida particular, até onde elas me deixaram conhecer e entender. Isso faz sentido quando são pessoas que usam a conservação como propósito de vida, não só como trabalho.

Foi o maior desafio e encantamento para mim. Desvendar como a história de vida delas vai se entrelaçando com a necessidade e a urgência de conservação e amor pela natureza, ou como isso foi se desenrolando até decantar-se no que elas fazem atualmente.

Para o João, ele também foi construindo uma história visual porque o projeto é muito lindo visualmente. É poético e inspirador. Então, ele também partiu da ordem de pensar no ambiente, na espécie e nessa mulher e no relacionamento dela com esse entorno. Seja com a sua equipe, com a comunidade local, com o próprio ambiente.

 

O que você aprendeu com essas histórias?

À parte do que eu aprendi e vivenciei sobre a biodiversidade brasileira e sobre sermos apenas uma das espécies integrantes da nossa cadeia da vida, acho que o que essas mulheres me ensinaram é a não jogar a toalha.

A Patricia Medici, uma das personagens, citou uma pergunta que me atravessou: “Será que estou trabalhando pela conservação ou para documentar uma extinção?”. Comecei a me questionar sobre isso e estou, sim, trabalhando pela conservação.

Essas mulheres são a prova de que somos muitos mais trabalhando pela conservação do que pela destruição do planeta, apesar de quem destrói fazer mais barulho.

Penso na Zelinha [Zélia Brito] que está pegando bote sozinha no Atol das Rocas [Rio Grande do Norte] para atravessar, ir lá contar quantas lagostas fêmeas tem; ou que a Neiva [Guedes], depois daquele fogo arrasante [no Pantanal] que queimou metade da população de araras, continua lá, subindo e colocando o ninho de novo; ou a Patriícia [Medici] com um monte de antas atropeladas, sabe? Elas seguem. Então, eu acho que o que elas me ensinaram foi isso, a seguir.

 

É possível esperar por uma parte 2 do filme?

No primeiro semestre teremos o lançamento do segundo documentário do projeto, o Mulheres na Conservação da Amazônia. O primeiro documentário, lançado em 2003 pela Tocha Filmes, ganhou sete prêmios, três internacionais.

Você vê uma “jovenzita” de 15 anos, de vários cantos do país, falando: “Eu quero ser que nem essa mulher. Eu amei esse documentário e agora eu quero ser isso”. Eu me emociono toda vez que penso a respeito. O quanto um exemplo pode mudar uma vida.

Eu acho que o documentário tem conseguido, através da arte, chegar nesses lugares também. Por isso decidimos fazer a parte 2, e porque a Amazônia não está contemplada no 1. A gente entende que são várias Amazônias e que a gente precisava fazer algo só sobre o bioma.

Eu não quero adiantar muita coisa, mas se o primeiro filme falava mais da vida dessas mulheres pela natureza do Brasil, o próximo filme vai falar do trabalho dessas mulheres pelas Amazônias.

Inclusive, entrevistamos a ministra Marina Silva, que é uma das personagens. A gente pretende ter uma multiplicidade de vozes: ribeirinhas, comunidades tradicionais, líderes indígenas, pesquisadoras, arqueólogas. Então, a gente tem uma diversidade enorme.

 

Para você, qual o papel do homem na busca por um mundo mais igualitário?

Acho que o papel do homem nesse mundo mais igualitário é justamente nessa luta de ele entender seus privilégios e abrir portas e/ou recuar para dar espaço a outras pessoas quando necessário. Que ele compreenda e se comprometa com essa sociedade mais igualitária para todos e todas.

As mulheres representam mais da metade da população. Não é possível não enxergar que há algo errado se esses lugares são ocupados majoritariamente por homens brancos.

É importante termos cada vez mais homens com vozes para falar sobre esses desafios nesse processo.

 

*Coordenadora de Comunicação do IPAM


Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Saiba mais em brasil.un.org/pt-br/sdgs.

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