Raízes que transformam: o protagonismo feminino que floresce na Rede Bragantina

9 de março de 2026 | Um Grau e Meio

mar 9, 2026 | Um Grau e Meio

*Por Nikole Cantoara

Em entrevista à newsletter Um Grau e Meio, Nazaré Ghirardi, agrônoma e coordenadora da Rede Bragantina de Economia Solidária, destaca sobre como a atuação da rede tem transformado realidades, promovendo autonomia feminina, geração de renda e cuidado com o meio ambiente. 

Atuando no território paraense, a rede fomenta ações coletivas de produção e comercialização de produtos entre produtores rurais locais. Trazendo ensinamentos sobre agroecologia e apoio à economia solidária, promovendo a capacitação de jovens agricultores, estratégias de segurança alimentar e conservação ambiental. 

Inscreva-se para receber a newsletter do IPAM na sua caixa de entrada. É de graça!

O que é a Rede Bragantina e de que forma sua atuação contribui para o protagonismo feminino? 

A Rede Bragantina surgiu em 2008, a partir de um processo de construção coletiva, inicialmente originado pela ECRAMA (Escola de Formação para Jovens Agricultores de Comunidades Rurais Amazônicas), situada em Belém (PA), e que visa contribuir na educação para vida e o trabalho em campo por meio de atividades voltadas à agroecologia. 

A criação desse espaço tem como principal objetivo a economia solidária, a troca de experiências e produtos, e o fortalecimento coletivo de homens e mulheres da zona rural. Já que, muitas vezes, relatam se sentir isolados em suas comunidades e com poucas possibilidades de comunicação. 

Desde do início, a principal demanda das mulheres estava relacionada à comercialização de seus produtos, já que, historicamente, a venda e a negociação na agricultura familiar eram conduzidas majoritariamente pelos homens, enquanto o trabalho feminino continuava invisibilizado. 

Ao se estabelecer, a rede passou a incentivar as próprias mulheres a assumirem o protagonismo na venda de alimentos, artesanatos e derivados de suas produções, como colorau, raízes, frutas e plantas medicinais. Esses produtos, cuidados por elas, sempre foram importantes para a segurança alimentar e economia das famílias, mesmo que nem sempre reconhecidos como uma fonte de renda. Então, com o apoio dessa rede, as mulheres passaram a agregar valor a sua mão de obra, além de organização e comercialização, fortalecendo sua autonomia econômica. 

O que diferencia uma rede que favorece a participação feminina dentro do contexto rural amazônico?

Justamente porque não se limitar somente ao fortalecimento econômico das mulheres, mas sim valorizar, sobretudo, os saberes tradicionais que elas acumulam ao longo de suas vidas. 

Cada produto comercializado pela rede, como fitoterápicos, garrafadas e pomadas, carrega consigo conhecimentos construídos a partir da experiência, da vivência comunitária e da relação histórica dessas mulheres com a terra. Ao apresentar esses produtos, a rede faz questão de evidenciar que não se tratam apenas de mercadorias, mas de resultados de saberes tradicionais que merecem reconhecimento e respeito, tanto por parte de quem produz, quanto de quem consome.

Quais transformações você já presenciou na vida das mulheres envolvidas?

Do ponto de vista social, o primeiro avanço observado é o fortalecimento da autonomia das mulheres. Hoje, muitas delas já se sentem mais seguras para ocupar espaços públicos, participar de reuniões, feiras e até conceder entrevistas, algo que antes criava insegurança. 

Esse processo contribuiu para romper um silêncio historicamente imposto, sob o qual muitas mulheres permaneciam em posição passiva, mesmo quando não concordavam com determinadas decisões. Então, gradualmente, elas passaram a expressar suas opiniões com mais confiança, superando barreiras relacionadas ao medo e à opressão.

Outro aspecto importante é o ganho econômico e organizativo decorrente do trabalho delas, da venda de seus produtos e, consequentemente, a conquista da sua independência. Por exemplo, nas comunidades quilombolas que atuam com fitoterápicos, a participação feminina em feiras, junto com o apoio de nossa rede, ampliou a visibilidade do trabalho e gerou recursos para melhorias na infraestrutura de suas produções. 

Além disso, o apoio formativo, como os cursos de plantas medicinais e assessorias técnicas especializadas, colaborou para qualificar a produção e organizar pequenas farmácias comunitárias, ampliando tanto a geração de renda, quanto o atendimento às necessidades locais.

Essas conquistas demonstram que o impacto vai além da dimensão econômica. Trata-se de um processo educativo e transformador, que promove autoestima, liderança, reconhecimento social e valorização dos saberes tradicionais, consolidando o protagonismo feminino nas comunidades rurais.

Que mensagem você deixaria para as mulheres que desejam trabalhar ou trabalham com o meio ambiente nesses moldes? 

A mensagem que eu desejo passar é que elas possam buscar se organizar e encontrar espaços de acolhimento pertinentes a suas necessidades, afetos e anseios. Sempre olhar para fora e ajudar o próximo, ter ações que possam alcançar e apoiar mulheres que ainda estão isoladas com suas dores. Trazer a educação como base para o crescimento e fortalecimento da presença de mulheres.  

Estagiária de comunicação*

 



Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Saiba mais em brasil.un.org/pt-br/sdgs.

Veja também

See also