Pan-Amazônia estuda criar NDC coletiva, diz pesquisador da OTCA

26 de janeiro de 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

jan 26, 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

Por Bibiana Alcântara Garrido*

Em sua primeira edição de 2026, a newsletter Um Grau Meio entrevista Arnaldo Carneiro, coordenador do Observatório Regional Amazônico da OTCA (Organização do Tratado de Cooperação Amazônica).

A OTCA tem como função promover a cooperação entre os oito países da Pan-Amazônia (Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela), com foco na proteção dos ecossistemas por meio do desenvolvimento sustentável.

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No ORA, Arnaldo Carneiro e sua equipe estão focados nos temas de mudanças climáticas, desmatamento, biodiversidade, queimadas e água, estudando a vulnerabilidade futura da Pan-Amazônia a incêndios florestais e a relação das florestas com o oceano.

 

O pesquisador Arnaldo Carneiro na sede da OTCA em Brasília (Foto: Bibiana Garrido/IPAM)

 

Geógrafo, ecólogo da paisagem e pesquisador aposentado pelo INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), ele falou à Um Grau e Meio sobre a integração amazônica, as lacunas no enfrentamento à emergência do clima e a ideia de criar uma NDC coletiva para a região.

Leia a seguir.

O que é a Pan-Amazônia?

A Pan-Amazônia é um conceito que foi construído pelo Brasil. O Brasil sempre se referiu à Amazônia como um pedaço do seu país, mas quando se deu conta de que a Amazônia tem espaços fora, chamou isso de Pan-Amazônia.

É uma expressão que integra as Amazônias dos outros oito países. Mas quando você vai nesses países, Pan-Amazônia é uma expressão que eles não utilizam. Usam “Amazônia” para falar do todo.

Hoje em dia eu me refiro à Amazônia brasileira, à Amazônia colombiana… e quando estou em reunião nos países, falamos da Amazônia na sua totalidade.

De que forma o Tratado assinado em 1978, em Brasília, acompanhou as transformações dos últimos 50 anos?

Se você olhar a geopolítica da época, você vai encontrar muitas ditaduras no entorno da Amazônia, inclusive no Brasil. A grande preocupação dos militares era a manutenção da soberania territorial. Então, foi nesse ambiente que se criou o TCA (Tratado de Cooperação Amazônica).

Conforme a história foi caminhando, os temas foram evoluindo, a OTCA foi se adaptando e esses temas foram sendo incorporados. Criado em 2021 pela OTCA, o ORA (Observatório Regional Amazônico), serve como centro de referência para informações essenciais sobre a gestão compartilhada e sustentável da Amazônia.

Na atualidade, o grande tema no ORA é a questão das mudanças climáticas e a trajetória perigosa em que estamos, na Amazônia inclusive, que pode nos levar a um ponto de não retorno.

Quais foram os principais avanços para a conservação amazônica no período? E quais lacunas persistem?

Se a gente olhasse um gráfico, teve um momento de grande expansão sobre a Amazônia. Nesse afã de integrar para não entregar, os militares começaram a promover a criação de infraestruturas, digamos, entre os anos 1970 e 1990. Já nos anos 1990, o Plano Real criou outro pico de desmatamento na Amazônia, porque o consumo de madeira também cresceu.

Nos anos 2000, Marina Silva trouxe a sociedade civil para dentro do governo e teve um movimento de transparência de informação genial, criando uma capacidade absurda na ciência e nas ONGs da Amazônia. O governo recebia uma maçaroca de aportes, análises e sugestões para políticas públicas, que bem aplicadas, criaram um impacto enorme no desmatamento na Amazônia brasileira. Se você olhar a curva, nos anos 2000 a gente realmente derrubou o desmatamento para níveis que são parecidos com os atuais.

Muitas áreas protegidas e territórios indígenas foram definidos nos anos 2000 e 2010. Foram décadas de muito crescimento e solução para direitos de quilombolas e indígenas. Ainda temos pendências, uma dívida socioambiental é enorme. Mas nós avançamos muito.

Também aprendemos que uma fatia do desmatamento (30 a 35%), que eu trato como social, é realizada por pequenos produtores que estão em assentamentos, ribeirinhos, todos desassistidos e com pouco acesso a soluções que poderiam reduzir seus impactos.

O desafio é implementarmos uma série de políticas orientadas a estes grupos sociais e que permitam integrar economicamente e socialmente. Acho que nós ainda estamos patinando nesta agenda.

De que maneira a geopolítica regional e global influencia nesse cenário?

Hoje em dia, a gente já vive eventos extremos na Amazônia. A grande pergunta é quem é o vilão dessa história. A questão ainda é o papel global e o papel regional.

O ingresso de umidade na Amazônia, a partir do Atlântico, depende da temperatura oceânica: se a temperatura oceânica sobe demais, temos eventos climáticos mais sêcos no interior da Amazonia. Se essa temperatura dos oceanos cai demais, acontece o contrário, temos grandes ciclos de enchentes.

Com isso, a gente tem uma ideia do impacto global, porque é a poluição da América do Norte que determina a temperatura do Atlântico Norte. É o aquecimento global provocado pela Europa e pelos Estados Unidos, principalmente.

Esse é um tema que a gente traz para os chanceleres, porque as mudanças climáticas na Amazônia têm um fator global que é o hemisfério Norte. Nós somos do hemisfério Sul. Então isso traz uma agenda política Norte-Sul para dentro da OTCA.

Como a região se organiza para lidar com as mudanças climáticas?

A gente vai começar a fazer campanhas internacionais. Nossa campanha de comunicação tem que sair desse raio de oito países da OTCA e expandir para Europa, Estados Unidos e Ásia. Temos que estar nas mídias e fóruns de maneira permanente..

O mundo se acostumou e a mídia adora publicar os dados do desmatamento e o papel que eles têm nas mudanças climáticas. Então, o mundo quando vê isso, acha que todo o impacto sobre o clima global vem do desmatamento da Amazônia. E isso é uma inverdade. De uma certa maneira, são padrões de consumo do hemisfério Norte sustentando as emissões que estão criando impactos sobre a Amazônia.

Em 2024, por exemplo, tivemos uma grande seca e grandes incêndios. Isso é outra coisa que nos interessa muito: em que medida as mudanças climáticas criam vulnerabilidades na Amazônia e predisposição a incêndios. Este ano estamos começando um projeto com uma ferramenta para ter um olhar muito mais acurado sobre os incêndios, com uma frequência muito rápida.

Quando você olha para os nossos planos e compromissos nacionais, cada país define a sua NDC. Mas nós somos países colonizados, não? Costumamos carregar muito naquilo que é a mitigação: “preciso mostrar que eu tô derrubando o desmatamento, que eu tô diminuindo as queimadas, que eu tô reduzindo o meu impacto”. Quando você olha para a adaptação, eu diria que nós não estamos carregando muito na tinta não.

Há uma série de fatores que a gente tem que começar a pensar para as populações amazônicas, sejam elas urbanas ou rurais, que hoje nós não estamos pensando.

Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados, com as piores temperaturas em 2023, 2024 e 2025. Quais são os impactos dessa realidade na Pan-Amazônia?

Eu diria que a adaptação vai ser um problema sério para os amazônidas. A escassez de chuvas ou a abundância extrema de chuvas, que gera outro impacto, além do calor. As cidades na Amazônia já formam ilhas de calor, não são bem adaptadas ao que vem pela frente. Seja em cidades pequenas, médias ou grandes, as construções não estão adaptadas às mudanças climáticas e às altas temperaturas.

A OTCA pretende criar uma “NDC coletiva” dos países amazônicos?

Houve uma tentativa, um movimento no ano passado, mas que não prosperou como a gente desejava, justamente para termos uma NDC amazônica.

Se você olhar a NDC brasileira, ela se refere a programas que estão associados à Amazônia, por exemplo, o PPCDAm. Os outros países, nem todos fazem isso. Muitas vezes, não fazem referência explícita a uma intenção referente à Amazônia.

O que nos interessa é olhar para as ações. Nós vamos fazer ora um monitoramento, ora fazer uma análise crítica, então a gente vai talvez ter uma ação mais influente no momento da revisão da agenda.

Como chegar ao consenso sobre o clima quando países amazônicos seguem caminhos opostos? O Brasil, por exemplo, com novas frentes de exploração fóssil, e a Colômbia, que declarou sua porção de Amazônia livre de petróleo.

Nesse tema em particular do petróleo, não houve consenso na OTCA. Alguns países amazônicos têm forte dependência da exportação de óleo e gás. Então cada país deve seguir com a sua estratégia econômica.

Em 2026, qual seria a melhor notícia para a proteção da Pan-Amazônia?

A melhor notícia para 2026 não seria um único anúncio, mas uma percepção clara de que a região Pan-Amazônica entrou em um ponto de virada positivo e mostrando que a cooperação regional, a ciência e o financiamento podem trabalhar juntos.

Também, a Amazônia não deve mais ser entendida apenas como uma “floresta ameaçada”, mas como uma infraestrutura planetária para a regulação do clima, da água e da biodiversidade, necessária para a segurança alimentar, energética e climática na América do Sul e no mundo.

 

*Jornalista do IPAM, bibiana.garrido@ipam.org.br



Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

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