Nova reserva protege Cerrado nativo e comunidades tradicionais no norte de Minas Gerais

8 de abril de 2026 | Notícias

abr 8, 2026 | Notícias

Por Lucas Guaraldo

 

Anunciada durante a COP15 das Espécies Migratórias, a criação da RDS (Reserva de Desenvolvimento Sustentável) Córrego dos Vales do Norte de Minas protegerá cerca de 37 mil hectares de vegetação nativa no Cerrado mineiro, além de comunidades tradicionais que vivem de forma sustentável na região há séculos. Criada a partir de áreas dos municípios de Riacho dos Machados, Serranópolis de Minas e Rio Pardo de Minas, a reserva passará a compor um conjunto de áreas protegidas na região, que abriga nascentes e espécies endêmicas da Serra do Espinhaço.

“A região é estratégica, pois abriga áreas essenciais para a recarga hídrica e proteção de nascentes que alimentam grandes bacias, como a do rio São Francisco. Além disso, reúne características únicas por ser uma zona de transição entre os biomas Cerrado e Caatinga, com uma biodiversidade adaptada às condições mais secas. Também abriga comunidades tradicionais que historicamente manejam os recursos da região. Esse conjunto de fatores torna a criação da RDS Córregos dos Vales fundamental para conciliar conservação ambiental e proteção dos modos de vida locais”, aponta Bárbara Costa, analista de pesquisa do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

 

Mapa indicando a localização da Reserva de Desenvolvimento Susntentável Córrego dos Vales do Norte de Minas, localizada próxima da fronteira mineira com a Bahia e cobrindo mais de 30 mil hectares de Cerrado ainda preservado

 

Reservas de Desenvolvimento Sustentável são Unidades de Conservação que abrigam populações tradicionais com culturas baseadas no uso sustentável dos recursos naturais. A RDS permite que essas populações mantenham seus modos de vida tradicionais, ao mesmo tempo em que protege a natureza. Além disso, a legislação permite o uso desse território para turismo, visitação e pesquisa científica.

A RDS Córrego dos Vales do Norte de Minas abriga comunidades geraizeiras, povos tradicionais do Cerrado mineiro. Essas comunidades possuem modo de vida tradicional baseado na agricultura familiar, criação de animais soltos no pasto nativo e coleta de frutos do Cerrado. Segundo Isabel Castro, pesquisadora do IPAM e integrante da coordenação da iniciativa Tô no Mapa, os geraizeiros possuem conhecimento profundo sobre o uso sustentável da terra e “garantir o território para essas comunidades é respeitar seus direitos e valorizar seus saberes, mas também é o caminho mais eficaz para a proteção do Cerrado”.

Atualmente, 8,2% de toda a área do Cerrado está dentro de áreas protegidas, e apenas 2% em áreas de proteção integral, como parques nacionais e estações ecológicas. No Norte de Minas Gerais, a RDS passa a integrar um mosaico de áreas protegidas que inclui os parques estaduais Caminho dos Gerais, Serra dos Montes Altos, Verde Grande, Lagoa do Cajueiro, Grão Mogol, Serra Nova e Veredas do Peruaçu, além do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu e da Terra Indígena Xakriabá.

“A proximidade de áreas protegidas, mesmo sem uma conexão física entre elas, contribui para a conservação da biodiversidade, já que proporciona o deslocamento de espécies entre fragmentos de vegetação nativa e evita o isolamento genético destas espécies. Esse é um cenário essencial para a proteção de ecossistemas frente às mudanças de uso do solo e mudanças climáticas”, destaca Roberta Rocha,  analista de pesquisa do IPAM.

Nos últimos 40 anos, segundo dados da Coleção 10.1 de mapas anuais de cobertura e uso da terra do MapBiomas, foram perdidos 2,1 mil hectares de vegetação nativa na área que passa a compor a RDS, além de outros 6,1 mil hectares perdidos em seu entorno, somadas, essas perdas de vegetação nativa no interior e entorno da RDS equivalem a cerca de 7% da área do município de Riacho dos Machados. No mesmo período, a agropecuária aumentou sua área em 7,5 mil hectares, expandindo-se em 123% dentro da reserva e em 43% em seu entorno.

“A criação da reserva também protege nascentes que abastecem a região, como os córregos Vacaria, Poções e Tamanduá. Ainda, devido à sua formação vegetacional, como a presença de campos rupestres, a área apresenta alto endemismo de espécies de animais e plantas, o que a torna especialmente relevante para a conservação ecológica. Foram identificadas na região quatro espécies de morcegos e pequenos roedores ameaçadas de extinção ou vulneráveis, assim como três espécies de arbustos endêmicos sensíveis a distúrbios ambientais, relevantes para a preservação da biodiversidade local”, aponta Ana Gabriela Souza, analista de pesquisa do IPAM.

 

Jornalista do IPAM, lucas.itaborahy@ipam.org.br*

Foto de capa: ICMBio/Reprodução**

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