Líder indígena defende floresta como caminho ao equilíbrio climático

15 de junho de 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

jun 15, 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

Por Mayara Subtil*

Há mais de três décadas, Almir Narayamoga Suruí busca responder a uma pergunta: como proteger a floresta sem abrir mão do desenvolvimento das comunidades que vivem nela? Para o líder indígena, a resposta passa por transformar a conservação ambiental em oportunidade econômica, fortalecendo a Amazônia e contribuindo para o enfrentamento da crise climática. O caminho tem incluído iniciativas de reflorestamento, projetos de carbono, produção sustentável de café e, mais recentemente, a implantação da primeira biofábrica de chocolate em terra indígena na Amazônia.

Natural da TI (Terra Indígena) Sete de Setembro, localizada entre os estados de Rondônia e Mato Grosso, Almir iniciou sua trajetória como liderança em um contexto marcado pelo avanço da exploração ilegal de madeira. Foi a partir desses desafios que começou a construir estratégias voltadas à conservação da floresta e à promoção de alternativas sustentáveis para sua comunidade.

Habitada pelo povo Paiter Suruí, a TI Sete de Setembro possui pouco mais de 248 mil hectares e está situada em uma região historicamente pressionada pelo avanço da ocupação não indígena. Ao longo das décadas, a exploração madeireira, a expansão agropecuária e a abertura de estradas transformaram a paisagem do entorno e passaram a representar ameaças cada vez maiores à área.

A atuação de Almir na defesa dos povos indígenas e da floresta amazônica ultrapassou as fronteiras da TI. Seu trabalho recebeu reconhecimento de organizações nacionais e internacionais, incluindo a ONU, que o homenageou em 2013 com o título de “Herói da Floresta” pelo papel desempenhado na conservação da Amazônia. Mais recentemente, também foi reconhecido por iniciativas voltadas ao enfrentamento da crise climática e ao fortalecimento de modelos sustentáveis de desenvolvimento em terras indígenas.

“O meu projeto de vida é respeitar a floresta. Utilizar a floresta como o melhor instrumento para o equilíbrio do mundo. Por isso, os principais projetos que desenvolvemos aqui estão ligados ao meio ambiente”, afirmou Almir.

Na década de 1990, mais de 500 caminhões saiam da terra indígena carregados de madeira diariamente, segundo ele. Diante desse cenário, o povo Paiter Suruí iniciou a construção de um plano estratégico de longo prazo voltado à proteção do território e, em paralelo, à geração de alternativas econômicas sustentáveis.

Os levantamentos realizados no início dos anos 2000 apontaram que parte da cobertura florestal da Sete de Setembro já havia sido degradada e que algumas espécies nativas estavam desaparecendo de áreas afetadas pela exploração madeireira. Com esse diagnóstico, lideranças indígenas, pesquisadores e organizações parceiras passaram a construir um plano de gestão territorial com horizonte de 50 anos.

O documento, elaborado com a participação de indígenas e pesquisadores, passou a orientar ações de governança territorial, conservação ambiental e desenvolvimento comunitário, conciliando saberes tradicionais e ciência.

Uma das primeiras iniciativas resultantes desse planejamento foi o projeto Pamine, que na língua Tupi-Mondé dos Suruí significa “o renascer da floresta”. Criado em 2005, o projeto surgiu com o objetivo de recuperar áreas degradadas pela exploração madeireira e por atividades agropecuárias, além de reintroduzir espécies nativas essenciais para a subsistência da comunidade.

“Nós decidimos recuperar as áreas desmatadas e devolver para a floresta aquilo que havia sido retirado dela. Era preciso reconstruir o que estava sendo perdido”, resumiu Almir.

O trabalho passou a ser realizado em mutirões comunitários e envolveu diferentes gerações dos Suruí. Desde então, mais de um milhão de mudas já foram plantadas, contribuindo para a recuperação de áreas degradadas e para o fortalecimento das cadeias produtivas locais.

Dois anos depois, Almir passou a discutir a implementação de um mecanismo de pagamento por serviços ambientais. O processo resultou na criação do primeiro projeto indígena de carbono do Brasil, concluído entre 2010 e 2011. A iniciativa permitiu a comercialização de créditos de carbono gerados pela conservação da floresta e abriu caminho para novas estratégias de geração de renda associadas à proteção ambiental.

Ao longo dos anos, a comunidade também passou a investir em cadeias produtivas ligadas à sociobiodiversidade. Café, castanha e cacau foram integrados à uma estratégia voltada à agregação de valor dos produtos da floresta, associando produção, conservação e fortalecimento econômico das famílias indígenas.

Produção de café na TI Sete de Setembro. Foto: Lucas Vieira/Funai

Parte dessa trajetória está ligada à própria história de ocupação da região. Com o tempo, áreas antes utilizadas para atividades produtivas foram incorporadas a modelos mais sustentáveis de manejo, permitindo que produtos como o café ganhassem espaço como alternativa econômica alinhada à conservação ambiental.

Segundo Almir, a partir de 2017 a comunidade passou a intensificar esse processo, buscando transformar sua produção em produtos especiais e ampliar sua inserção em mercados diferenciados. “Cada vez mais buscamos qualificar a nossa produção. Não é quantidade. É qualidade. Mostrar para os consumidores que aquilo que produzimos não tem apenas valor econômico, mas também responsabilidade com as pessoas e com o território”, explicou.

A produção de café ganhou reconhecimento fora do território. Em 2021, produtores indígenas de Rondônia foram premiados por produzirem alguns dos melhores cafés robustas amazônicos do estado por meio do Projeto Tribos, iniciativa voltada ao fortalecimento da cafeicultura sustentável em terras indígenas.

Primeira biofábrica de chocolate em terra indígena

A nova biofábrica de chocolate surge justamente dentro desse contexto. Desenvolvida em parceria com o Instituto Amazônia 4.0, a iniciativa pretende transformar o cacau produzido no território em chocolate elaborado pelos próprios indígenas, unindo ciência indígena e tecnologias de processamento. A ideia foi apresentada à comunidade pelo climatologista Carlos Nobre e começou a ser estruturada há cerca de dois anos. Desde então, indígenas participam de capacitações voltadas ao beneficiamento do cacau por meio de um laboratório instalado na terra indígena.

Agora, a estrutura definitiva da biofábrica está em construção. A previsão é que as instalações estejam prontas em agosto de 2026, permitindo uma nova etapa de treinamento dos profissionais que irão atuar diretamente na produção.

Indígenas Suruí em laboratório para fabricação de chocolate. Foto: Reprodução/Instituto Amazônia 4.0

Além de agregar valor à matéria-prima produzida localmente, o projeto busca gerar empregos dentro da própria comunidade. A expectativa é que os trabalhadores envolvidos no processo produtivo sejam remunerados e que a iniciativa fortaleça a economia local sem ampliar a pressão sobre a floresta.

“A meta é que saia daqui um chocolate diferenciado, produzido dentro de uma terra indígena, com mão de obra indígena e organizado a partir dos dois conhecimentos: a tecnologia não indígena e a tecnologia indígena. Você não vai encontrar um chocolate igual a esse em qualquer lugar do mundo”, destacou Almir.

O projeto deverá atender produtores indígenas do território, mas também pretende adquirir parte da produção de agricultores não indígenas do entorno, desde que os cultivos estejam alinhados a critérios socioambientais. Para o líder indígena, iniciativas como essa demonstram que é possível construir modelos econômicos compatíveis com a conservação ambiental. Segundo ele, produtos da sociobiodiversidade podem gerar retorno financeiro sem reproduzir os impactos associados ao avanço do desmatamento e de atividades ilegais.

“Nossa luta é mostrar que é possível desenvolver economicamente um território produzindo de forma planejada, com responsabilidade ambiental e combatendo as mudanças climáticas. O valor do produto não está apenas no que ele produz, mas também na forma como ele é produzido”, disse.

Apesar dos avanços, Almir avalia que ainda existem desafios importantes para ampliar esse tipo de experiência. Entre eles, a dificuldade de acessar recursos e investimentos voltados a projetos sustentáveis em terras indígenas.

“É muito difícil encontrar investimento para projetos desse porte. Não existe uma política pública estruturada para apoiar esse tipo de iniciativa dentro das terras indígenas. E sem esse apoio, fica muito mais difícil proteger a floresta e gerar oportunidades para as comunidades”, acrescentou.

Na avaliação do líder indígena, a ausência de oportunidades econômicas pode favorecer o avanço de atividades ilegais, como o garimpo, a retirada de madeira e o arrendamento irregular de terras. Por isso, ele defende que iniciativas voltadas à geração de renda sustentável sejam fortalecidas por meio de políticas públicas e investimentos de longo prazo. Ao falar sobre o futuro, Almir reforça que proteger a floresta não significa impedir seu uso, mas garantir que isso ocorra de forma planejada e responsável.

“Quando falamos em proteger a floresta, não estamos dizendo que ela é intocável. Estamos dizendo que ela precisa ser utilizada com planejamento, responsabilidade e pensando no futuro. Se a Terra deixar de produzir por causa das nossas próprias atitudes, não vai importar se alguém é rico ou pobre. Todos serão afetados”, concluiu.

*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br

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Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

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