Por Lucas Guaraldo
Com a previsão de um forte El Niño, que pode provocar secas e temperaturas recordes na Amazônia, cientistas destacam a importância de uma gestão integrada do fogo, capaz de coordenar ações e fortalecer o apoio técnico entre todas as esferas de governo. O tema foi debatido no painel “Incêndios florestais e mudanças climáticas na Amazônia: políticas públicas e ações de prevenção, controle e capacidade de resposta”, organizado pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) durante a II Semana do Clima da Amazônia, realizada em Belém, em 1º de julho. O encontro reuniu cientistas, representantes da sociedade civil, bombeiros e gestores públicos para discutir os desafios do combate aos incêndios florestais e os avanços técnicos na área.
“A política de fogo no Brasil, historicamente, foi muito reativa, agindo quando ocorriam grandes queimadas. Mas ter políticas preventivas para o fogo é fundamental porque é um tema que envolve muitos setores e afeta diretamente a vida de todos nós. É um assunto ligado à própria história da humanidade, mas sem a devida atenção, a vida de milhões de pessoas está em risco e é só entendendo de onde vem o fogo e trabalhando junto com várias organizações que conseguiremos mitigar seus riscos”, destaca Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM.
Apesar da redução significativa da área queimada em 2025, 58% menor do que a registrada no ano anterior, o Brasil ainda registrou mais de 12 milhões de hectares queimados ao longo do ano. Em 2024, quando os efeitos do fenômeno climático foram mais intensos, mais de 30 milhões de hectares foram atingidos pelo fogo, cobrindo cidades amazônicas com fumaça tóxica, ameaçando comunidades tradicionais e populações do interior e afetando, sobretudo, áreas nativas e conservadas da floresta.
“Eventos como esse são muito importantes porque conseguem unir boa parte dos atores envolvidos na gestão do fogo para discutir os vários aspectos desse tema complexo”, afirma Jarlene Gomes, pesquisadora e coordenadora técnica do IPAM.
Nesse contexto, a Lei do Manejo Integrado do Fogo (MIF), aprovada em 2024 após a temporada histórica de incêndios, estabelece diretrizes para o uso planejado e controlado do fogo como ferramenta de manejo e prevenção. Além de prever a realização de queimas prescritas para reduzir o acúmulo de material combustível, a legislação fortalece a coordenação entre órgãos públicos e incorpora conhecimentos e práticas tradicionais às políticas de gestão do fogo.
“O foco agora deve ser na parte da integração do MIF. Cada grupo tem sua contribuição, seja no combate efetivo, na pesquisa, nas políticas públicas, e só conseguiremos fazer funcionar se todos estivermos empenhados e trocando informações. Não tem como a política de MIF funcionar se não estivermos integrados e cooperando”, pontua Lawrence Nóbrega, coordenador de Monitoramento e Combate aos Incêndios Florestais do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).
Linha de frente
Segundo o diagnóstico Gestão do Fogo na Amazônia, que mapeou a estrutura de governança, os recursos disponíveis e as estratégias de manejo do fogo nos nove estados da Amazônia Legal, a resposta aos incêndios deve priorizar a integração entre diferentes níveis de governo e setores da sociedade. As pesquisadoras responsáveis pelo estudo também destacaram a necessidade de ampliar o efetivo de brigadistas e bombeiros militares na região, além de investir em equipamentos e infraestrutura para que áreas cada vez maiores possam ser monitoradas e protegidas.
“Temos criado sistemas que forneçam equipamentos para todos os níveis de governo. Essa coordenação de atividades em diferentes esferas regionais é muito difícil, mas muito importante. Porque se conseguimos combater esse fogo efetivamente em todas as frentes, quem tem mais a ganhar é a sociedade”, explica Jusciery Marques, tenente-coronel do Conselho Nacional de Comandantes-Gerais dos Bombeiros Militares e especialista em operações de combate ao fogo.
Na Amazônia, os Corpos de Bombeiros Militares utilizam sistemas de monitoramento e gestão para detectar focos de calor, acompanhar o risco de incêndios e coordenar as operações em campo. Essas ferramentas integram imagens de satélite, dados meteorológicos e informações geográficas, mas sua efetividade depende da integração com bases de dados produzidas por outros órgãos e instituições. Para os especialistas, fortalecer essa articulação e ampliar os investimentos em equipamentos, aeronaves, veículos e tecnologias adaptadas às grandes distâncias da Amazônia é fundamental para tornar as ações de combate mais rápidas e eficientes.
“Um exemplo de como a integração tem mudado a gestão do fogo é que temos aumentado o número de ações interestaduais de combate às queimadas. Quando um Estado não tem capacidade para lidar com uma situação, agora temos mecanismos que aceleram a capacidade de outras regiões atuarem conjuntamente nesse combate com mais velocidade”, completa Marques.
Cooperação entre Estados
Também participaram do painel representantes do Consórcio da Amazônia Legal, organização que reúne os nove estados da Amazônia Legal para promover ações conjuntas de desenvolvimento sustentável, conservação ambiental e enfrentamento das mudanças climáticas. O grupo tem atuado na elaboração dos planos estaduais de Manejo Integrado do Fogo, articulando a captação de recursos e a cooperação técnica entre secretarias estaduais e organizações da sociedade civil, como o IPAM.
Para Beatriz Casado, assessora técnica da Coordenação de Parcerias e Câmaras Setoriais do Consórcio da Amazônia Legal, a construção de espaços interestaduais de cooperação é fundamental para lidar com as diferentes capacidades institucionais e necessidades de manejo de cada estado.
“Ouvir essa variedade de pessoas e territórios é sempre muito rico porque ventila nossas ideias e permite a troca de informações e que a gente conheça as dificuldades e forças de cada região, conseguindo ajustar da melhor forma as ações de gestão do fogo”, ressalta Casado.
A discussão ganha ainda mais relevância diante das previsões de um novo episódio de El Niño entre o fim de 2026 e o início de 2027. Menos de três anos após o último evento, o fenômeno, potencializado pelo aquecimento dos oceanos, pode provocar secas prolongadas e temperaturas recordes na Amazônia, reduzindo a umidade da floresta e aumentando o risco de incêndios de grandes proporções.
“A gente tem oficializado caminhos para que todos os atores envolvidos com a gestão do fogo possam enviar informações diretamente para o Governo Federal. Isso faz com que a resposta nesses momentos de crise seja ainda mais rápida e pode agir de forma mais acertiva”, completa João Paulo Sotero, analista ambiental do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.