Nesta nota técnica, analisamos como o avanço do garimpo e a intensificação dos desastres climáticos se sobrepõem em Terras Indígenas da Amazônia Legal, criando um cenário de riscos compostos para os Povos Indígenas. A partir de dados sobre a ocorrência de secas, enchentes, incêndios florestais e deslizamentos entre 2000 e 2024, combinados a informações sobre a expansão do garimpo, o estudo mostra que ameaças climáticas e socioambientais não atuam de forma isolada, mas se reforçam mutuamente, ampliando impactos sobre a saúde, a segurança hídrica e alimentar, os modos de vida e a permanência das comunidades em seus territórios.
Nas últimas quatro décadas, a área diretamente afetada pelo garimpo aumentou 20 vezes na Amazônia Legal e 24 vezes dentro das Terras Indígenas, passando de cerca de 1,5 mil hectares, em 1985, para mais de 36 mil hectares, em 2024. Apenas entre 2016 e 2024, o crescimento foi de 562%, tornando as Terras Indígenas a categoria fundiária proporcionalmente mais impactada pela mineração ilegal. Embora o garimpo esteja diretamente presente em 19 TIs, seus efeitos alcançam uma área muito maior: 147 Terras Indígenas, equivalentes a 37% das TIs da Amazônia, estão inseridas em bacias hidrográficas impactadas pela atividade. Além disso, aproximadamente 40% dos garimpos localizados fora desses territórios estão a menos de 50 quilômetros de seus limites, o que aumenta o risco de contaminação dos rios por mercúrio e outros poluentes.
A sobreposição entre essas pressões é especialmente evidente nas Terras Indígenas Kayapó, Munduruku e Yanomami, que concentram cerca de 89% de toda a área garimpada em TIs. Os municípios associados a esses três territórios registraram, juntos, 188 desastres climáticos entre 2000 e 2024, sendo 71 relacionados à TI Kayapó, 43 à Munduruku e 74 à Yanomami. De forma mais ampla, os municípios onde estão localizadas as 19 Terras Indígenas com presença de garimpo registraram entre 15 e 132 eventos no período analisado, evidenciando uma dupla exposição ao avanço da mineração ilegal e aos extremos climáticos.
Os resultados reforçam que esses impactos ultrapassam as perdas materiais. Secas extremas reduzem a navegabilidade dos rios e dificultam o acesso a alimentos, água e serviços de saúde, enquanto o garimpo amplia a contaminação por mercúrio, degrada ecossistemas aquáticos e intensifica conflitos territoriais. Combinados, esses processos reduzem a capacidade de recuperação das comunidades e ameaçam conhecimentos tradicionais, práticas culturais e a transmissão intergeracional da identidade indígena. A nota aponta, assim, para a necessidade de políticas integradas de proteção territorial, combate ao garimpo ilegal, adaptação às mudanças climáticas e reconhecimento das perdas e danos materiais e não materiais enfrentados pelos Povos Indígenas.

