Entre conquistas e riscos compostos: por que o futuro ancestral da Amazônia está ameaçado

15 de setembro de 2026

set 15, 2026

Patricia Pinho, Rafaella Silvestrini, Hugo Luiz Rego, Yara Araújo, Ray Alves, Larissa Castro, Sineia do Vale

Nesta nota técnica, analisamos como o avanço do garimpo e a intensificação dos desastres climáticos se sobrepõem em Terras Indígenas da Amazônia Legal, criando um cenário de riscos compostos para os Povos Indígenas. A partir de dados sobre a ocorrência de secas, enchentes, incêndios florestais e deslizamentos entre 2000 e 2024, combinados a informações sobre a expansão do garimpo, o estudo mostra que ameaças climáticas e socioambientais não atuam de forma isolada, mas se reforçam mutuamente, ampliando impactos sobre a saúde, a segurança hídrica e alimentar, os modos de vida e a permanência das comunidades em seus territórios.

Nas últimas quatro décadas, a área diretamente afetada pelo garimpo aumentou 20 vezes na Amazônia Legal e 24 vezes dentro das Terras Indígenas, passando de cerca de 1,5 mil hectares, em 1985, para mais de 36 mil hectares, em 2024. Apenas entre 2016 e 2024, o crescimento foi de 562%, tornando as Terras Indígenas a categoria fundiária proporcionalmente mais impactada pela mineração ilegal. Embora o garimpo esteja diretamente presente em 19 TIs, seus efeitos alcançam uma área muito maior: 147 Terras Indígenas, equivalentes a 37% das TIs da Amazônia, estão inseridas em bacias hidrográficas impactadas pela atividade. Além disso, aproximadamente 40% dos garimpos localizados fora desses territórios estão a menos de 50 quilômetros de seus limites, o que aumenta o risco de contaminação dos rios por mercúrio e outros poluentes.

A sobreposição entre essas pressões é especialmente evidente nas Terras Indígenas Kayapó, Munduruku e Yanomami, que concentram cerca de 89% de toda a área garimpada em TIs. Os municípios associados a esses três territórios registraram, juntos, 188 desastres climáticos entre 2000 e 2024, sendo 71 relacionados à TI Kayapó, 43 à Munduruku e 74 à Yanomami. De forma mais ampla, os municípios onde estão localizadas as 19 Terras Indígenas com presença de garimpo registraram entre 15 e 132 eventos no período analisado, evidenciando uma dupla exposição ao avanço da mineração ilegal e aos extremos climáticos.

Os resultados reforçam que esses impactos ultrapassam as perdas materiais. Secas extremas reduzem a navegabilidade dos rios e dificultam o acesso a alimentos, água e serviços de saúde, enquanto o garimpo amplia a contaminação por mercúrio, degrada ecossistemas aquáticos e intensifica conflitos territoriais. Combinados, esses processos reduzem a capacidade de recuperação das comunidades e ameaçam conhecimentos tradicionais, práticas culturais e a transmissão intergeracional da identidade indígena. A nota aponta, assim, para a necessidade de políticas integradas de proteção territorial, combate ao garimpo ilegal, adaptação às mudanças climáticas e reconhecimento das perdas e danos materiais e não materiais enfrentados pelos Povos Indígenas.

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