Há cidades jovens que correm para parecer importantes. Belém não precisa correr. Ela observa e lembra. Ela sabe esperar. Fundada em 1616, às margens de rios amazônicos que sempre souberam mais do que os mapas, a cidade aprendeu cedo que o tempo, aqui, não é linha reta: é correnteza.
Quatro séculos depois, a cidade segue de pé não porque resistiu intacta, mas porque mudou. Belém envelheceu como envelhecem as cidades vivas, incorporando camadas, misturando vozes, acumulando histórias que nem sempre cabem nos livros. A cidade nasceu fortaleza, virou porto, mercado e encruzilhada da Amazônia. Cresceu ouvindo passos indígenas, africanos, europeus, nordestinos e ribeirinhos. Aprendeu a falar muitas línguas sem perder o sotaque. E talvez seja isso que o tempo deu a Belém: a capacidade de ser antiga sem ser imóvel.
Belém também se tornou um espaço de produção de conhecimento sobre a Amazônia. Há três décadas, o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) constrói, a partir da região, ciência comprometida com o futuro da floresta e das pessoas que dependem dela. É em Belém, cidade antiga e viva, que pesquisas, dados e saberes locais se encontram para transformar a experiência histórica em soluções para os desafios climáticos do presente e do amanhã.
A Belém da era moderna
Belém sabe que modernidade não é apagar o passado, mas dialogar com ele. Está no Ver-o-Peso que acorda antes do sol, onde a Amazônia se traduz em cheiros, cores e alimentos, mas também nos laboratórios, nas universidades e nos debates sobre clima, floresta e futuro que nascem a partir do território amazônico. Está nos casarões que guardam silêncios e nas periferias que reinventam a cidade todos os dias. Está na ciência que se faz aqui e na sabedoria que sempre esteve aqui.
Aos 410 anos, Belém conhece como poucas cidades o custo e o valor da Amazônia viva. Sabe o que significa viver cercada de rios, sentir o peso das marés, depender da floresta e, ao mesmo tempo, vê-la ameaçada. Essa experiência não é nostalgia, é conhecimento acumulado. É capital histórico e territorial para pensar soluções num mundo em crise climática.
Celebrar os 410 anos de Belém não é olhar para trás com saudade, é reconhecer que o futuro também nasce daquilo que foi vivido às margens da floresta. Que uma cidade antiga pode ser, justamente por isso, essencial para imaginar novos caminhos para a Amazônia e para o planeta. Belém chega aos 410 anos com o corpo marcado pelo tempo e a cabeça voltada para o amanhã. Antiga o suficiente para saber quem é, e viva o suficiente para continuar sempre em movimento.
