“O El Niño não coloca fogo na vegetação; no Brasil, a ignição é humana”

24 de agosto de 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

ago 24, 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

As temporadas de fogo no Brasil são resultado da combinação entre condições climáticas extremas, disponibilidade de material combustível e presença de fontes de ignição. Em períodos de seca prolongada, temperaturas elevadas e baixa umidade, a vegetação se torna mais inflamável e incêndios iniciados por atividades humanas podem se espalhar rapidamente e atingir grandes áreas.

A Um Grau e Meio da quinzena entrevista Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), para analisar o comportamento do fogo em períodos de seca, os efeitos do El Niño sobre o risco de grandes incêndios e a influência das mudanças climáticas nesse cenário.

O assunto engloba também o ciclo de retroalimentação do fogo na Amazônia, a maior vulnerabilidade de áreas que já foram queimadas e as medidas que o Brasil deve adotar para antecipar e reduzir o risco de temporadas extremas, com foco em prevenção, inteligência territorial, fortalecimento das brigadas e manejo integrado do fogo.

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Ane Alencar. Foto: Sara Leal/IPAM


O que faz uma temporada de fogo se tornar especialmente severa no Brasil? Quais fatores determinam a extensão e a intensidade das áreas atingidas?

Uma temporada de fogo se torna especialmente severa quando estes três elementos se combinam: a começar pelas condições climáticas extremas, disponibilidade de material combustível pronto para queimar e presença de muitas fontes de ignição. As condições de clima e tempo podem fazer com que um fogo vire um grande incêndio, pois influencia muito na propagação. Sendo assim, períodos prolongados de pouca chuva, temperaturas elevadas e baixa umidade do ar acabam impactando a quantidade de água disponível para as plantas, tornando a paisagem muito mais inflamável. Se essas condições vêm acompanhadas de ventos fortes, o fogo pode se espalhar rapidamente e se tornar muito mais difícil de controlar.

Mas o clima, sozinho, não inicia a maior parte dos incêndios no Brasil. Grande parte das ignições está relacionada às atividades humanas, seja pelo uso do fogo na agropecuária, por queimadas que escapam do controle ou por uso ilegal e criminoso. Por isso, os anos mais críticos são aqueles em que há uma grande quantidade de ignições ocorrendo sobre uma paisagem excepcionalmente seca e inflamável. O tipo de vegetação, o histórico de uso da terra, o acúmulo de combustível e a ocorrência prévia de fogo também determinam quanto uma região irá queimar e com qual intensidade.

Quando uma região passa por uma seca mais intensa e prolongada, como isso muda o comportamento do fogo e a capacidade de controlá-lo?

A seca transforma profundamente o comportamento do fogo. À medida que a vegetação perde umidade, materiais que normalmente dificultariam a propagação das chamas passam a funcionar como combustível. Isso acontece tanto com folhas e galhos secos no solo quanto com partes da própria vegetação viva em situações extremas.

O resultado é que o fogo tende a se espalhar mais rapidamente, permanecer ativo por mais tempo e atingir áreas maiores. Em condições muito secas e quentes, pequenas ignições – que em outro cenário poderiam ser facilmente controladas – podem se transformar em grandes incêndios. O combate também se torna muito mais difícil: diminuem as chamadas “janelas de oportunidade” para controlar as chamas, com temperaturas mais baixas e maior umidade, e o fogo pode permanecer ativo durante a noite ou reacender com facilidade. Além disso, vários incêndios podem ocorrer simultaneamente, sobrecarregando brigadas, bombeiros e estruturas de resposta.

O El Niño não provoca o fogo diretamente, já que a maior parte das ignições no Brasil tem origem humana. Como explicar a relação entre o fenômeno climático e o aumento da área queimada sem estabelecer uma relação direta de causa e efeito?

É importante separar quem acende o fogo e quais condições permitem que ele se transforme em um grande incêndio. O El Niño não coloca fogo na vegetação. No Brasil, as ignições são predominantemente humanas. O que o fenômeno pode fazer, especialmente em partes da Amazônia e do Norte do país, é alterar a circulação atmosférica e contribuir para redução das chuvas, aumento das temperaturas e prolongamento da estação seca.

Essas condições funcionam como um amplificador do risco. Uma mesma quantidade de ignições pode produzir resultados muito diferentes em um ano úmido e em um ano extremamente seco. 

Em condições normais, muitos focos não avançam. Durante uma seca associada ao El Niño, a vegetação pode estar tão seca que esses mesmos focos encontram combustível disponível para se espalhar por áreas muito maiores. Portanto, o El Niño não deve ser tratado como a causa do fogo, mas como um fator que pode aumentar fortemente a probabilidade de as ignições já existentes se transformarem em grandes incêndios.

O histórico das últimas décadas mostra anos com áreas queimadas muito acima da média, alguns deles marcados pelo El Niño. O que esses episódios extremos ensinam sobre as condições que favorecem grandes incêndios no país?

Os grandes episódios de fogo das últimas décadas mostram que incêndios extremos raramente resultam de um único fator. Eles ocorrem quando diferentes condições críticas acontecem ao mesmo tempo, como déficit de chuva acumulado, seca prolongada, temperaturas muito elevadas, baixa umidade do ar, vegetação seca e disponibilidade de ignições.

Os anos de El Niño ajudam a evidenciar essa relação porque alguns eventos fortes coincidiram com secas severas na Amazônia e com temporadas de incêndios muito intensas. Mas também aprendemos que não é necessário haver El Niño para ocorrer uma temporada extrema. Outras anomalias climáticas, como o aquecimento do Atlântico, principalmente na sua faixa tropical, podem contribuir para reduzir as chuvas na Amazônia.

Além disso, mudanças no uso da terra, degradação florestal e o próprio aquecimento global estão alterando o pano de fundo sobre o qual esses eventos climáticos acontecem. O principal aprendizado é que quanto maior o número de condições críticas ocorrendo simultaneamente, maior a possibilidade de uma temporada ultrapassar os padrões históricos.

Na Amazônia, onde o fogo não faz parte da dinâmica natural da floresta, o que acontece quando incêndios atingem repetidamente uma mesma área? Uma floresta que já queimou fica mais vulnerável a novos incêndios?

Sim. Na floresta amazônica existe um processo que podemos chamar de ciclo de retroalimentação do fogo. Uma floresta intacta mantém um microclima relativamente úmido e sombreado, que funciona como uma barreira natural à propagação das chamas. Quando ela queima pela primeira vez, muitas árvores podem morrer nos meses e anos seguintes. Essas árvores aumentam a quantidade de material combustível no chão e a abertura do dossel permite maior entrada de luz, vento e calor.

Com isso, a floresta fica mais seca e mais inflamável. Se voltar a queimar, a mortalidade de árvores tende a aumentar e o ambiente se torna ainda mais aberto. Esse processo pode se repetir, fazendo com que os intervalos entre incêndios diminuam e a intensidade dos impactos aumente. Portanto, uma floresta que já queimou geralmente está mais vulnerável a queimar novamente. Incêndios recorrentes reduzem os estoques de carbono, alteram a composição de espécies, afetam a biodiversidade e podem comprometer progressivamente a capacidade da floresta de manter sua estrutura e suas funções ecológicas.

Com o avanço das mudanças climáticas, o Brasil pode enfrentar temporadas de fogo mais severas independentemente da ocorrência do El Niño? Como o aquecimento global está alterando esse cenário?

Sim. Esse é um dos aspectos mais preocupantes das mudanças climáticas. O El Niño continuará sendo um importante modulador do clima, mas ele passa a ocorrer sobre um planeta progressivamente mais quente. Isso significa que se uma anomalia climática produzia determinada temperatura ou déficit de umidade no passado, ela pode ocorrer sobre uma condição de base muito mais quente hoje.

Temperaturas maiores aumentam a evapotranspiração, retiram umidade da vegetação e do solo e aumentam o déficit de pressão de vapor da atmosfera, tornando os combustíveis mais secos e inflamáveis. Ao mesmo tempo, em várias regiões, há sinais de secas mais intensas, ondas de calor mais frequentes e prolongamento das condições favoráveis ao fogo.

Com isso, temporadas severas podem ocorrer mesmo sem um El Niño forte. E, quando um El Niño muito forte coincide com esse novo patamar de aquecimento, os extremos podem se tornar ainda mais perigosos. A mudança climática está, portanto, ampliando a janela de risco e aumentando a probabilidade de condições meteorológicas propícias a incêndios extremos.

Diante de um novo El Niño, o que o Brasil deveria fazer desde já para reduzir o risco de uma temporada crítica de incêndios? Quais medidas de prevenção deveriam ser prioridade?

A principal estratégia é não esperar que os incêndios comecem. Quando há previsão de um El Niño e de uma possível seca intensa, é possível utilizar a informação climática para antecipar as regiões com maior risco e iniciar as ações de prevenção com meses de antecedência. Isso significa integrar previsões climáticas, histórico de fogo, condição da vegetação e informações territoriais para identificar onde uma ignição tem maior probabilidade de se transformar em um grande incêndio.

Também é fundamental reduzir o número de ignições durante os períodos mais críticos, reforçando fiscalização e controle do uso ilegal do fogo e trabalhando junto aos produtores e comunidades para adequar o uso planejado do fogo às condições meteorológicas. Ao mesmo tempo, é necessário fortalecer brigadas antes do início da temporada, garantir pessoal, equipamentos, logística, acesso à água e posicionamento estratégico das equipes.

Outra prioridade é ampliar a implementação do Manejo Integrado do Fogo, combinando prevenção, conhecimento científico, saberes tradicionais e manejo da paisagem. Em ecossistemas dependentes ou adaptados ao fogo, como partes do Cerrado, o uso planejado e tecnicamente adequado do fogo em períodos de menor risco pode ajudar a reduzir o acúmulo e a continuidade de combustível. Na Amazônia, por outro lado, a prioridade deve ser impedir que o fogo entre nas florestas.

Por fim, a preparação para eventos extremos exige coordenação entre municípios, estados e governo federal. Em anos de grande seca, o problema deixa de ser apenas a ocorrência de incêndios individuais. Existe o risco de muitos incêndios ocorrerem simultaneamente, superando rapidamente a capacidade local de resposta. Por isso, antecipação, inteligência territorial e prevenção precisam ser tratadas como parte central da política de fogo, e não apenas como ações realizadas quando a emergência já está instalada.

ODS 15ODS 13

Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

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