Viabilizar conservação é chave para atingir metas ambientais e econômicas

10 de abril de 2026 | Notícias

abr 10, 2026 | Notícias

Por Lucas Guaraldo*

Caminhos que tornem a conservação e recuperação de florestas tropicais devem ser fortalecidos e são chave para que metas climáticas e econômicas sejam alcançadas, destacou André Guimarães, diretor executivo do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e enviado especial da sociedade civil para a COP 30, durante o workshop “Cooperação internacional pela Amazônia: impulsionando a implementação da Declaração de Belém”, realizado ontem (9) em Brasília.

“O TFFF (Fundo Florestas Tropicais para Sempre) tem que se firmar. A geopolítica está complicada e o cenário não é favorável, mas, pela primeira vez, temos um caminho para que a floresta em pé passe a ser mais lucrativa do que a floresta derrubada. As florestas tropicais são chave para a regulação climática, mas também são centrais para a segurança alimentar do planeta, para o conforto térmico e para nos dar qualidade de vida. Somos um país ‘floresta-dependente’. Hoje, 30% do nosso PIB e 70% da nossa energia elétrica dependem da chuva produzida na Amazônia”, comentou.

O encontro reuniu embaixadores, tomadores de decisão, representantes da comunidade científica e da sociedade civil, além de lideranças indígenas, para discutir a implementação dos compromissos ambientais firmados nos últimos anos.

“Sem a Amazônia, não existe qualquer possibilidade de atingirmos as metas climáticas do Acordo de Paris. Ela espalha umidade do sul do Texas até a Patagônia, irriga 60% da soja do mundo, 30% do milho e 40% do café. Isso só acontece porque temos a Amazônia, que faz chover no restante do continente. Se perdermos mesmo metade desse bioma, a vida na Terra terá que mudar drasticamente”, completou.

Segundo estudos conduzidos pelo IPAM na Estação de Pesquisa Tanguro e publicados na revista Nature, os cultivos de soja e milho perdem, respectivamente, 6% e 8% de sua produtividade a cada grau acima da temperatura média. No cenário atual de aquecimento, mais da metade das áreas produtivas da porção central do Brasil estaria operando fora de seu limite climático e se tornaria inviável para a produção em grande escala.

“Acho que ainda não caiu a ficha para a população em geral do que significa o aumento do aquecimento global. No ritmo em que estamos, o IPCC estima que teremos um aumento de até 4,5°C na temperatura das áreas continentais do planeta. Nesse cenário, precisaremos de políticas de adaptação climática extremamente robustas e isso só funciona se combatermos o crime organizado e se a preservação da floresta for um bom negócio para todos”, alertou Paulo Artaxo, presidente do conselho deliberativo do IPAM, professor e chefe do Departamento de Física da USP (Universidade de São Paulo) e membro do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas).

Contato com o território

Realizado durante as atividades do Acampamento Terra Livre, que reúne lideranças e representantes indígenas de todo o Brasil para reivindicar direitos e apresentar as respostas dos povos originários para a adaptação climática, o evento também destacou o papel das centenas de etnias amazônicas para o cumprimento das metas ambientais globais.

“A Amazônia, antes de tudo, é um território de gente, é o Aripó [cesto artesanal] do mundo, onde guardamos nossas coisas mais preciosas. Temos, sim, que ter um olhar macro, mas também precisamos celebrar e enxergar as várias iniciativas que estão acontecendo no chão, nos territórios. Quem vive os nossos sonhos para a Amazônia são os jovens, os extrativistas, as mulheres e os indígenas, que estão ali fazendo acontecer. Não é só dinheiro, é vontade. Temos deixado a desejar com as pessoas que estão na ponta”, destacou Alcilene Cardoso, pesquisadora do IPAM.

Mais do que beneficiários de projetos de conservação que citam seus modos de vida como bens a serem protegidos, os povos indígenas devem ser tratados como agentes de mudanças e defensores dos interesses nacionais, destaca Francisco Filippo, chefe da Assessoria Internacional do Ministério dos Povos Indígenas, que também compôs a mesa. Segundo o advogado, historicamente, povos originários têm mantido de pé os maiores remanescentes de floresta preservada mesmo quando se encontram desamparados politicamente e correndo risco de vida.

“Os povos indígenas são centrais nesse diálogo. Não podemos aceitar de forma alguma um discurso ainda muito corrente de que os povos indígenas são prejudiciais para os interesses nacionais. Ainda temos que mudar muito porque, mesmo que comece a se reconhecer os papéis desses povos no setor privado, em iniciativas como mercado de carbono que veem eles como estratégicos para a conservação, ainda temos que combater a exclusão desses povos das políticas públicas em todos os níveis e inserir essas lideranças e esses pontos de vista no centro dos debates brasileiros”, afirmou.

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