Estados da Amazônia tiveram até 138 dias de ar nocivo à saúde após queimadas

20 de março de 2026 | Notícias

mar 20, 2026 | Notícias

Por Lucas Guaraldo*

 

Queimadas recorde de 2024 cobriram porções da Amazônia com partículas nocivas à saúde por até 138 dias, aponta estudo inédito conduzido por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

Em 2025, a redução dos focos de calor diminuiu em 71% a presença de ar impuro na região. Ainda assim, estados da porção sudoeste do bioma enfrentaram mais de 20 dias de exposição à fumaça tóxica. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a exposição ao PM 2.5,  material particulado fino associado às queimadas, está relacionada a 4,2 milhões de mortes por ano no mundo, além de doenças cardiovasculares e câncer de pulmão.

“Em 2024, a Amazônia viveu um cenário bem crítico de poluição do ar por causa da seca extrema, com impactos claros para a saúde da população. Em 2025, com o clima mais favorável, a situação melhorou e a qualidade do ar também. Essa comparação mostra como eventos climáticos extremos e queimadas estão diretamente ligados ao aumento da poluição e reforça a necessidade de investir em prevenção, monitoramento e ações integradas entre meio ambiente e saúde”, explica Vanessa Ribeiro, pesquisadora do IPAM e uma das autoras do estudo.

Em 2024, queimadas impulsionadas por uma seca histórica elevaram a área atingida pelo fogo na Amazônia para mais de 17 milhões de hectares, segundo dados do Monitor do Fogo da Rede MapBiomas, da qual o IPAM faz parte.

Em 2025, com a normalização do regime de chuvas e a adoção de políticas de manejo do fogo, a área queimada caiu 78%, totalizando 3,8 milhões de hectares. Os estados mais atingidos em 2024 — Pará, Mato Grosso e Tocantins — registraram, em média, 47 dias de ar considerado nocivo à saúde, superando níveis de poluição observados em grandes metrópoles. Rondônia, oitavo estado com maior área queimada no período, somou 100 dias de ar poluído, liderando o ranking de exposição prolongada.

Publicada em 20 de março, a nota técnica “Amazônia em Chamas: a qualidade do ar em 2024 e 2025” foi elaborada por pesquisadores do IPAM, da Columbia Climate School, do Woodwell Climate Research Center e do Instituto Ar. O estudo propõe incorporar o monitoramento sistemático da qualidade do ar associada a queimadas e incêndios florestais como uma nova camada de análise sobre os impactos desses eventos na população e no meio ambiente. A iniciativa também busca preparar territórios sob influência do fogo recorrentes para lidar com a pressão adicional exercida pela poluição atmosférica sobre os sistemas de saúde e as estratégias de adaptação.

“Diferentemente de outros biomas, a Amazônia não possui um regime natural de fogo e não evoluiu para lidar com queimadas. Na prática, quase todo o fogo registrado na região tem origem humana — seja pelo uso agropecuário para limpeza de pastagens e preparo de áreas agrícolas, seja pela queima intencional de vegetação desmatada. Em anos de seca extrema, como 2024, essas ignições escapam ao controle e se transformam em grandes incêndios florestais, amplificando drasticamente a destruição ambiental e a poluição atmosférica”, explica Felipe Martenexen, pesquisador do IPAM que também trabalhou na pesquisa.

Para minimizar os riscos associados à baixa qualidade do ar provocada pelo fogo, o estudo recomenda integrar metas de qualidade do ar aos planos de controle do desmatamento e das queimadas, como o PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal). A nota técnica também defende a capacitação de profissionais de saúde e a criação de protocolos específicos para reduzir os danos da exposição à fumaça e permitir respostas mais rápidas e coordenadas a crises ambientais.

Mudanças em 2025

Em 2025, observou-se uma redução da exposição à poluição atmosférica no sudoeste da Amazônia Legal, enquanto parte relevante do material particulado passou a se concentrar na porção leste do bioma. Nesse período, Maranhão e Rondônia registraram os maiores níveis de poluição, com 13 e 11 dias consecutivos, respectivamente, de ar com elevada concentração de partículas na atmosfera.

A diminuição das queimadas também reduziu o número de dias consecutivos com ar de baixa qualidade nos estados do sudoeste amazônico. Em Rondônia, o total caiu de 89 para 11 dias; em Mato Grosso, de 59 para 12; e no Acre, de 51 para 4 dias consecutivos. Por outro lado, o Maranhão apresentou aumento de 2 para 13 dias consecutivos, indicando maior quantidade dos episódios críticos na porção leste da Amazônia Legal.

“Entre 2024 e 2025, as mudanças não ficaram só na área total queimada. O que realmente fez diferença foram as condições climáticas, que influenciaram tanto a intensidade quanto a forma como a poluição se espalhou. Em 2024, a seca extrema ligada ao El Niño reduziu muito as chuvas, aumentou as temperaturas e deixou o ar mais seco. Esse cenário facilitou a propagação das queimadas, fez os incêndios durarem mais tempo e dificultou a dispersão dos poluentes”, explica Vanessa.

A atenuação dos efeitos do El Niño em 2025 contribuíram para o retorno das chuvas e a redução do número de queimadas e do ressecamento do ar. Ainda, políticas de Manejo do Fogo implementadas no ano passado também contribuíram para a redução da área atingida, assim como para a redução da duração das queimadas.

“Com chuvas mais regulares e um clima menos extremo, a vegetação ficou menos inflamável. Isso ajudou a reduzir não só o volume total de emissões, mas também alterou a circulação e o transporte das massas de ar. A comparação entre os dois anos mostra que a poluição atmosférica na Amazônia não depende apenas do tamanho das áreas queimadas, mas da combinação entre ações humanas e fatores climáticos, que influenciam tanto a emissão quanto a dispersão dos poluentes”, completa a pesquisadora.

Nos municípios, os indicadores permaneceram concentrados no Arco do Desmatamento — região que abrange o sul e o leste do Pará, o norte do Mato Grosso, Rondônia e Acre —, porém com menor intensidade e menor abrangência territorial em relação ao ano anterior. Também houve mudança no perfil dos municípios mais afetados, que passaram a se concentrar predominantemente no Pará (Rondon do Pará, Jacundá, Novo Repartimento e Abel Figueiredo) e no Maranhão (Codó, Brejo de Areia e Lago da Pedra), evidenciando o deslocamento dos episódios críticos para o leste da Amazônia Legal.

 

jornalista do IPAM, lucas;itaborahy@ipam.org.br*

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