Por Tainá Andrade*
O corte de 17% no orçamento para fiscalização e prevenção de incêndios florestais em 2026 é um sinal de alerta, afirma a diretora de Ciência do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), Ane Alencar.
A pesquisadora defende que a política de combate e prevenção aos incêndios florestais no Brasil deve ser uma agenda progressiva, de construção permanente. Para isso, os investimentos devem ser constantes para evitar crises estruturais, principalmente em momentos de emergência climática.
“Pode parecer que, se você tem um ano mais quente ou mais seco, precisa de mais recursos. Mas, na verdade, é preciso manter o básico funcionando para que a prevenção ocorra. Quando chega um ano mais crítico, é importante que essa base esteja sólida para não lidar com uma situação de desestruturação, falta de recursos ou ausência de engajamento comunitário”, explica Alencar.
Entre as prioridades, a diretora destaca o fortalecimento das brigadas comunitárias, que atuam tanto no uso ordenado e responsável do fogo, quanto na resposta rápida aos focos de incêndio. O aparelhamento da infraestrutura e o fortalecimento da comunicação, segundo a diretora, são fundamentais para manter o funcionamento das ações de manejo do fogo.
Crédito extraordinário não é solução
A previsão do orçamento da LOA (Lei Orçamentária Anual) para fiscalização do meio ambiente e prevenção de incêndios florestais em 2026 foi de R$495,8 milhões, R$101 milhões a menos que no ano passado.
Com o atual cenário, o MPO (Ministério do Planejamento e Orçamento) reabriu crédito extraordinário de R$ 53,6 milhões para o MMA (Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima).
O valor será dividido entre R$ 40,4 milhões para o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e R$ 13,1 milhões para o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), ambos para o enfrentamento a incêndios florestais e desmatamento.
“O crédito extraordinário é uma tentativa de remediar a insuficiência do orçamento que foi planejado. Mas isso não impacta no corte que foi feito de fato. O que é preocupante é que os incêndios são tratados no orçamento como um problema agudo, e não como um problema crônico”, explica Jarlene Gomes, pesquisadora do IPAM.
Segundo ela, quando o dinheiro é destinado em caráter emergencial, sua finalidade se torna apenas para o combate, o que provoca falha na prevenção. Por isso, o recurso deve ser melhor planejado, principalmente para a prevenção, que é essencial na contenção dos grandes incêndios.
As pesquisadoras apontam que as medidas de prevenção e combate impactam diretamente em políticas de restauração ambiental, pagamentos por serviços ambientais como o REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal), bioeconomia, manejo florestal e até na produtividade do agronegócio.
*Analista de Comunicação do IPAM
