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:: Programa - Manejo de Várzea - Manejo
de Lagos
Desenvolver Sistemas de Manejo para os Lagos de
Várzea
Viabilidade do Manejo de Lagos
A viabilidade dos lagos de várzea como unidade de
manejo pesqueiro é uma questão fundamental para a proposta de manejo
comunitário. Os lagos de várzea fazem parte do imenso sistema fluvial
do Rio Amazonas. Quando o nível do rio sobe, os lagos de várzea
se unem, formando um enorme lago que vai do Rio Xingu até Peru.
Quando o rio baixa muitos lagos secam completamente. Além disso,
muitas espécies não ficam nos lagos, e algumas espécies migram centenas
de quilômetros todo ano. Nessas condições, será que o manejo dos
lagos é viável?
Para avaliar a eficácia do manejo dos lagos, o pesquisador
Fábio de Castro comparou a pesca de um lago manejado com a de um
lago não manejado na região de Santarém e demonstrou que a pesca
é duas vezes mais produtiva no lago manejado. Esse resultado, embora
preliminar, indica que o tipo de manejo pode ter um impacto significativo
sobre a produtividade pesqueira dos lagos de várzea, entretanto,
a importância de outros fatores, especialmente ambientais, teria
que ser melhor estudada para se chegar a um resultado definitivo.
Utilização dos Recursos Naturais de Ituqui

Canoas de pescadores na margem
dos Lagos na época da cheia. Ilha do Ituqui. |
Para aprofundar as pesquisas sobre a viabilidade
de manejo de lago, o pesquisador Evandro Câmara tentou entender
os aspectos chaves de utilização dos recursos naturais nas comunidades
de Ituqui. Ele estimou a área da ilha de Ituqui em 20.000 ha, classificando-a
em 3 ambientes principais: as restingas, onde a população mora e
a maior parte da agricultura é desenvolvida; os campos naturais,
onde o gado pasta no período de água baixa e os lagos permanentes
onde a pesca é desenvolvida o ano todo. Nas mais de 300 famílias
estudadas no censo de 1995 em 8 comunidades, a economia familiar
estava baseada em diversas atividades como a pesca, praticada por
89% das famílias da ilha, a agricultura (79%), a pequena criação
(86%) e a pecuária (56%), sendo a pesca a mais importante para a
renda familiar.
A Pesca na Região de Ituqui
Para entender a pesca mais profundamente na região
de Ituqui, pesquisadores iniciaram uma coleta de dados por dois
anos e meio coordenada pela técnica Lourdes Pinto. Os resultados
mostraram que a pesca de Ituqui é típica de uma pesca artesanal
tradicional: é de pequena escala, envolve pescadores de tempo parcial,
que utilizam arreios simples e embarcações pouco especializadas.
Quase toda a atividade pesqueira é praticada em canoas e cascos
de madeira e os pescadores fazem em torno de 15 a 20 viagens por
mês de mais ou menos oito horas de duração. A captura média por
dia está em torno de 15 quilos, embora mais de 95% das capturas
estejam abaixo de 20 quilos. A captura mensal é de, aproximadamente,
de 250 quilos e a produção média anual é de 2.900 quilos, dos quais
pelo menos 800 quilos são consumidos pela família, sendo o restante
comercializado.

Assistente de campo retiram a
malhadeira da pesca experimental nos lagos de Ituqui. |
Ecologia dos Lagos de Várzea
Uma vez entendida a utilização dos recursos naturais
da Ilha de Ituqui, o Projeto Várzea concentrou seus esforços no
conhecimento da ecologia do sistema de lagos de Ituqui. Urbano Silva
Junior, pesquisador do Projeto Várzea, iniciou uma série de pesquisas
para estudar os ecossistemas de lagos e entender como essas informações
podem ser utilizadas para o manejo de lagos.
Para saber qual a abundância de pescado nos lagos
de Ituqui, Urbano fez uma pesca experimental colocando malhadeiras
e tarrafas no período de cheia e seca durante dois anos para avaliar
a diversidade e distribuição do recurso pesqueiro. Seu estudo demonstrou
que existem diferenças significativas entre as comunidades de peixes
nos diferentes lagos estudados, tanto em termos de composição como
em termos de quantidade de peixes. Seus resultados também mostraram
que a produção de peixe de Ituqui estava entre 117-229 kg/ha por
ano. Por fim, uma análise da variação do nível de água mostrou que
os vários lagos formados durante a seca possuem características
distintas e que essas diferenças são preservadas de um ano para
outro.
Mapeamento do Conhecimento Tradicional

Pesquisadora num dos barcos típicos
da região separando as macrófitas após a coleta dos dados. |
Após um estudo exaustivo sobre biomassa e diversidade
de macrófitas nos lagos de Ituqui e de sua relação com a abundância
do pescado, a pesquisadora Silmara de Cássia Luciano iniciou, em
1998, um estudo etnoecológico (baseado no conhecimento ecológico
da população local) com o objetivo de mapear as mudanças na paisagem
de Ituqui. Essa pesquisa demonstra que o conhecimento tradicional
é compatível com o conhecimento científico, e que a população local
possui propostas importantes para a recuperação e conservação ambiental.
O levantamento do conhecimento etnoecológico se mostra, portanto,
de grande eficiência para sistematizar, a curto prazo e com baixo
custo, informações de alta qualidade. Ao mesmo tempo, sensibiliza
e envolve os usuários na elaboração de propostas de uso sustentável
de seus recursos naturais.
Ecologia e Manejo de Pirarucu

Pesca do pirarucu na Ilha de
São Miguel |
Uma das espécies mais promissoras do ponto de vista
de manejo é o pirarucu (Arapaima gigas) que, além de ser
a maior espécie de peixe da Amazônia, é uma das mais valorizadas
no mercado. Por causa de seus hábitos sedentários, tamanho e alto
valor econômico, a espécie é ideal para o manejo nos lagos de várzea.
Numa primeira fase, Marcelo desenvolveu uma metodologia
simples, rápida e barata para avaliar a população regional de pirarucus,
baseando-se nas 'línguas', que são comercializadas separadamente.
A língua do pirarucu possui uma estrutura óssea que pode ser medida
para estimar tamanho e idade do peixe capturado. Esse estudo forneceu
o primeiro diagnóstico científico da condição de uma população regional
de pirarucu e confirmou a impressão geral de que a espécie está
sobre-explorada.
Recuperação de Ambientes em Lagos de Várzea

Comunitários monitorando o crescimento
das árvores após o reflorestamento |
Um dos grandes problemas da pesca é a degradação
dos ambientes de várzea, resultado do desmatamento, das queimadas
e da sobrecarga de animais nos campos naturais. Por essa razão,
moradores da comunidade de Aracampina formaram o Grupo Renascer
e, com o apoio dos técnicos Márcio dos Santos e André Sousa do Projeto
Várzea, criaram um projeto que prevê o plantio de duas mil árvores
por ano de espécies que produzem frutos consumidos por peixes. A
iniciativa de reflorestamento da Ilha de Aracampina foi tão positiva
que toda a comunidade se envolveu no processo, fazendo grandes mutirões
para o plantio das mudas. Atualmente, grupos de outras comunidades
da ilha estão desenvolvendo projetos semelhantes para recuperar
os ambientes de lago nas suas regiões.
SIG: uma Ferramenta Básica para o Manejo dos Lagos
Uma ferramenta cada vez mais importante para
a gestão dos recursos naturais é o SIG (Sistema de Informação Geográfica).
É um programa de computador que permite a integração e a comparação
de mapas com diferentes informações. Os pesquisadores Jamer Costa
e Marcelo Crossa estão desenvolvendo um SIG a partir de 21 mapas
temáticos da região de Ituqui. Utilizando mapas, imagens de satélite,
e fotos aéreas, eles estão elaborando um mapa da ilha de Ituqui,
através do qual serão identificados os principais tipos de ambientes,
sua distribuição e área. A essa base estão sendo integrados os bancos
de dados dos estudos desenvolvidos pelo Projeto, incluindo as pesquisas
sobre a população da ilha, a produção pesqueira dos lagos e as comunidades
de peixes e macrófitas aquáticas. Com esse conjunto de informações,
vamos desenvolver cenários alternativos baseados em sistemas de
manejo diferentes para facilitar a avaliação das conseqüências dos
diferentes regimes de manejo.
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