A floresta de transição
entre a Amazônia e o Cerrado é uma das mais
ameaçadas na Amazônia. Pelo regime climático
da região, com fortes secas sazonais, a vegetação
não apresenta as características das florestas
densas e úmidas que ocorrem mais ao norte. Nem tão úmida
como uma floresta densa, nem tão seca como o cerrado,
estas florestas de transição sofrem, contudo,
a ação do fogo todo ano. Uma vez que o fogo
atinge estas florestas, a probabilidade de um novo incêndio
aumenta consideravelmente. Isto acontece, pois o primeiro
incêndio mata muitas árvores, resultando na
abertura de clareiras na mata, permitindo a entrada de raios
solares no seu interior. A mortalidade provocada pelo fogo
também faz aumentar a quantidade de combustível
(madeira morta) no chão, formando um ciclo vicioso
que resulta em novos incêndios e, conseqüentemente,
no aumento de material inflamável no solo, que servirá de
combustível para incêndios cada vez mais fortes.
Esse processo tem também uma influência direta
sobre o regime de chuvas na região. A fumaça
das queimadas lança na atmosfera uma grande quantidade
de partículas que envolvem as gotículas de água
das nuvens, impedindo que elas se juntem e formem uma gota
com peso mínimo para precipitação. O
resultado é uma redução da chuva. |

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Com menos chuva e
mais fumaça, a floresta se torna vítima de
um segundo ciclo vicioso que tem se intensificado pela substituição
da floresta por culturas agrícolas e pastagens, que
se utilizam do fogo para o preparo ou “limpeza” da
terra. A combinação destes fatores, fogo, mortalidade
de árvores, fumaça e inibição
de chuva, em ciclos de queima e requeima de florestas, tem
levado a floresta de transição da Amazônia
a um processo de “savanização”.
Por este processo, a floresta fechada antes rica em espécies
e com uma grande quantidade de carbono estocado na vegetação,
passa a ser substituída por uma vegetação
degradada, altamente inflamável e com muito menos
espécies nativas de animais e plantas. Segundo estudos
do INPE/CPTEC, este tipo de savanização poderá atingir
grande parte da floresta amazônica no sudeste da bacia,
caso as mudanças climáticas locais e globais
se concretizem.
Para entender o potencial risco que a floresta amazônica
corre de se transformar em um ecossistema mais próximo
a um cerrado, o IPAM está desenvolvendo experimentos
que aceleram os processos que poderão “savanizar” as
florestas da região no futuro, através do Projeto
Savanização. Para tanto, grandes incêndios “experimentais” serão
realizados ao longo de seis anos, período em que os
pesquisadores avaliarão os efeitos do fogo sobre a fauna,
flora, e, principalmente, sobre a vulnerabilidade da floresta
a futuros incêndios. O "Projeto Savanização" servirá de
referência para compreender e avaliar com qual intensidade
e freqüência de fogo a floresta pode resistir, sem
que um processo de savanização seja iniciado.
O experimento de fogo – O experimento está sendo
realizado na Fazenda Tanguro, do Grupo A. Maggi, no município
de Querência, Mato Grosso. Trata-se de uma área
experimental com florestas de galeria em recuperação,
conforme a legislação ambiental, onde estão
sendo realizados testes de boas práticas de produção
de soja.
A área total de floresta a ser queimada é de
300 hectares, estes divididos em blocos de 100 hectares cada.
Todos os anos, a metade de cada um desses blocos será queimada,
enquanto o restante, será submetido a queima em ciclos
de três anos. Assim, pretende-se avaliar com qual intensidade
e freqüência de fogo a floresta pode resistir, sem
que um processo de savanização seja iniciado.
Cada bloco de floresta terá, também, uma área
de 50 hectares de floresta que será mantida livre de
fogo e servirá como controle.
Coordenação
Daniel Nepstad
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